Inês Biu Faro

por Inês Biu Faro

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Revisitei este desafio no dia a seguir ao Dia da Mãe, num dia em que, provavelmente pela primeira vez, não escrevi uma grande declaração de amor às minhas mãe e avós — e aproveitando também o título de um livro de Isabel Allende.

Nesta revisita, os primeiros pensamentos que se me chegaram foram os dos traumas, das coisas menos boas e dos padrões — tudo situações que tenho estado a tratar na psicoterapia e que, por isso mesmo, chegaram primeiro à minha mente.

Ainda assim, se as considero como «Mulheres da minha Alma», é porque também me transmitiram coisas muito, muito boas. Sejam elas do lado materno ou paterno da família, todas me ensinaram que a resiliência pode ser a minha melhor amiga e que ninguém mais do que eu lutará para conseguir aquilo que quero em cada fase da minha vida.

Avós, mãe, tias, primas. Todas elas têm um lugar especial na minha vida, no meu ser, na minha personalidade e, quanto mais as conheço, mais acho que não escolhemos as famílias, mas ainda assim eu tenho sido muito sortuda. Em todas elas, encontro colo, encontro afeto, abraços, conselhos, gargalhadas, lágrimas partilhadas, dores parecidas, características, defeitos e traços fisionómicos semelhantes.

Dizem-me que do nariz para cima sou igual ao meu pai, mas que também tenho lábios grossos como ele. Logo depois, dizem-me que estou muito parecida com a minha mãe, com o seu sorriso largo ou, até, o revirar de olhos. Desmaquilhada, sou a cara do meu pai. Com «as tintas» na cara, sou igual à minha mãe. Mas, no fundo, sou apenas e só igual a mim mesma.

De tudo o que aprendi com as mulheres da minha alma, o que guardo melhor são sempre as lições. Quer venham de bons ou maus momentos, há sempre algo para retirar e guardar, aprender para a próxima vez, e, como sempre fui muito observadora, há lições que, muito embora não tenham sido direcionadas para mim, não deixaram de ser bem aprendidas.

Quais? Honestamente, não consigo enumerá-las ou pô-las nas palavras certas. São já 37 anos de vida a aprender com tantas mulheres que me rodeiam, estejam elas ligadas a mim pelo sangue, pela afinidade ou pela amizade. Sim, ao longo destes anos considerei, como mulheres da minha alma, todas as mulheres que me marcaram, fosse de que maneira fosse — amigas mais ou menos próximas, mas que se tornaram raízes minhas. Todas elas mulheres que fizeram, fazem e farão morada em mim.

Tenho sido muito bem rodeada de mulheres maravilhosas — outras nem tanto, mas isso serão outras histórias —, mulheres que me criam, educam, cuidam, amam e inspiram! E não, não me faz sentido usar o pretérito perfeito, porque continuo a ser influenciada por todas elas, mesmo aquelas que já não têm lugar na minha plateia, apenas no meu sótão. Continuo a aprender e a reaprender todas e quaisquer lições, conselhos e exemplos.

Ainda que não tenha escrito uma grande declaração no dia em que todas o fizemos, não quero deixar passar a oportunidade de voltar a deixar a minha mãe a chorar de alegria. Porque ela merece ser exaltada por mim, pelo meu irmão, por todos os que a conhecem e ao seu coração.

A minha mãe é a minha maior inspiração! Por mais desentendimentos, por mais birras matinais, mau feitio, quebra de padrões ou «chaticinhas» diárias que haja, vai ser sempre o meu melhor refúgio, vai ser sempre a mulher que me ensinou a maquilhar-me, a vestir-me para qualquer ocasião — sobretudo as chiques! —, que me ensinou a usar e andar de saltos altos, que ainda hoje me ajuda a escolher roupa nova e a quem peço aprovação quando vou sozinha às compras. Mais do que coisas diárias, a minha mãe merece muito ser exaltada pela profissional incrível que é! Canta com tanta emoção e expressão que é impossível não sorrir, ou chorar, ao ouvi-la. Ensina os seus alunos a superar medos, a aventurarem-se, a conhecerem mais das suas vozes e as dos seus colegas, e, sem qualquer dúvida, a realizarem sonhos.

Eu sou uma dessas alunas sortudas. Se hoje canto ópera com paixão, foi por ter sido incentivada, pelo meu pai — que me educou a voz —, a ter aulas com ela para educar o ouvido e voar mais, trabalhar o meu diamante em bruto e descobrir que tenho uma voz quase tão poderosa quanto a sua.

A minha mãe é a mulher mais inspiradora da minha alma, aquela que sobe ao palco comigo, deixando-me a tomar conta dos bastidores, ou a dar-me asas para cantar, quer sozinha, quer em duetos ou conjuntos. Com ela, permiti-me falhar no canto, algo que levei sempre tão a sério — experimentem ser filhos de dois cantores e depois falamos sobre pressão imposta em nós mesmas! Com ela, permiti-me arriscar e, mesmo considerando que não sei ler música, cantar mais do que aquilo que está escrito nas partituras, entender as emoções e, até mesmo, aprender com estas mulheres que são personagens de ficção. A minha mãe inspirou-me a conhecer uma «Ave Maria» que se tornou a mais bonita que alguma vez cantei e cantarei — a de Pietro Mascagni —, deu-me força e confiança para que eu mesma confiasse em mim: «Estudaste tanto… Tu sabes de cor. Canta… Deixa-te ir!» E fui!

A minha mãe merece ser exaltada por todo o amor que dá, por tudo o que faz pelos seus sem esperar nada em troca, apenas para ficar em paz com a sua consciência. Ao longo da vida, abdicou de sonhos para conquistar outros e também isso ela me tem ensinado: o meu caminho não é o seu, mas posso aprender todos os dias que há várias hipóteses pela estrada e que posso — e devo! — escolher os passos que dou, aceitando as derrotas tanto quanto celebro as vitórias, que ela estará ao meu lado, quer para o colo e os conselhos, quer para as gargalhadas e as celebrações.

Até posso dizer (quase) todos os dias que a minha mãe é chata, melga, está sempre a «mandar vir» comigo, mas esse é o verdadeiro sentido de ser mãe. No dia em que ela deixar de o fazer, das duas uma: ou já cá não está — bate na madeira! —, ou já não se interessa. Por isso, espero que seja chata por muitos mais anos!

Ainda assim, olho para o outro lado do que esta mulher é e significa para mim — além do imenso amor e orgulho que lhe tenho — e costumo dizer que a minha mãe enche o nosso prédio de música, o meu quarto de perfume e o meu coração de amor. Por mais mulheres que me sejam raízes, que façam parte da minha alma, é com esta grande mulher que tenho sido imensamente feliz a partilhar o palco, a casa, até o local de trabalho, e a vida.

De todas as raízes e abraços que tenho na vida, é a minha mãe a mulher mais incrível da minha alma!

About the Author: Inês Biu Faro
Inês Biu Faro
Ainda não conhecia o abecedário quando começou a "escrever". Enchia cadernos com linhas "escritas" à sua maneira, com todos os seus contos de fadas e sonhos. Ao longo da escolaridade, aprimorou o gosto pela escrita e desde que se lembra que escreve diários. Não é fácil ser várias mulheres numa única e só os diários a compreendem, por falar consigo mesma. Escreveu, escreve e escreverá sempre com o coração, com emoção, de uma mulher para tantas outras, de um coração para tantos outros. Tem um manuscrito por editar. Será desta que sairá do forno? Esperemos que sim!

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