por Ana Cristina Gomes

Avó materna. Onde começa a história que somos. Quando, no seu ventre, recebemos a herança da vida e tudo o que nos constrói.
É nas avós maternas que a semente do nosso eu começa a ser germinada, muito antes de nascermos. Já somos antes de sermos corpo. Só neste caminho do autoconhecimento compreendi a importância das avós em nós. Mas também percebi que não podemos ocupar o seu lugar, nem viver as suas histórias, dores ou traumas.
Foi nesse momento que tive a certeza de que sou tão a minha avó materna. Ela é a Augusta. Eu sou a Ana. Temos um Sol em Virgem que nos liga, o mês de setembro que escolhemos para nascer e um amor pela espiritualidade que muitos não concebem nas suas mentes ainda retrógradas. As duas virginianas das mesmas horas. As duas, das energias. Uma ligação além do sangue. Uma ligação de almas que ainda se falam.
A minha avó nunca estudou. Não fez o curso nas cadeiras das universidades, nem pôde estudar aquilo que hoje são as ditas terapias holísticas. Mas sabia tanto mais do que muitos dos que estudam. A minha avó era sábia, quase uma feiticeira de amor pela cura dos outros. Curou tantos sem nunca pedir nada em troca. No tempo da sua vida, eu não tinha a consciência para compreender o quanto ela sabia, nem a ruralidade permitia que os outros entendessem essa ligação divina que ela trazia na alma.
Nunca percebi toda a sabedoria que ela tinha trazido para esta encarnação. Ela, um ser evoluído; e eu, tão atrasada em mim, não pude aproveitar essa dádiva de ouvir as suas partilhas. Gostava de ter tido a oportunidade de lhe fazer tantas e tantas perguntas. Que conversas interessantes seriam falarmos de estrelas, energias, ervas… Sobre a vida e a consciência. Sobre Deus e os Anjos.
A minha avó partiu, faz este mês de julho 17 anos. Os anos voaram. A sua alma voa alto no céu como guia e guardiã. Agora está num lugar seguro. No lugar sagrado, onde pode ser aquilo que já mostrava em vida, mas não na dimensão exata do dom que tinha. Agora é a fada, a bruxa, a anciã, a sábia, a feiticeira. A curandeira, a que tem a cura em si.
Ela foi-se e acordou este meu lado espiritual que esteve adormecido anos e anos a fio. Ela devia ter ficado para me transmitir os seus ensinamentos, mas quis ir. Era a libertação de que precisava para se curar. E, de alguma maneira, também a minha cura. A cura entre nós e a nossa ancestralidade está interligada de um modo que, às vezes, nem a lógica explica.
Olho tantas vezes para o céu e sinto que, algures, ela lança umas estrelas para guiar o meu caminho. Anjos e pedras. Para que eu possa crescer e ser a Ana, não só a neta da Augusta ou a que nasceu no mesmo mês da avó. Ser a Ana com os dons e ocupar o meu lugar na família. O meu lugar na linhagem. Não o de uma outra mulher da minha ancestralidade, mas ocupar o lugar que devo e mereço enquanto Mulher.
O Dia dos Avós. Recordo o dia 26 de julho de 2009 e a minha ausência numa visita ao lar (por tantos motivos, sobretudo financeiros). Cinco dias depois, a minha avó deixava o corpo. Não é culpa nem ressentimento o que guardo. É, simplesmente, o lembrar-me de que não importa se é dia disto ou daquilo, deste ou daquele: devemos estar presentes na vida de quem está presente, seja de que maneira for. Essa aprendizagem ficou-me e tento levá-la para o dia a dia.
Ao escrever esta crónica, viajo nas palavras e nas recordações do tempo. Lembro-me da infância naquela quinta, onde ainda hoje as flores nascem em seu tributo. Lembro-me dos pássaros que ainda hoje passeiam por lá e nos cantam a melodia de um olá. Lembro-me das quedas na terra! Lembro-me de sorrir e rir sem parar!
Transpiro nas memórias das tardes quentes de agosto, dos almoços à sombra do castanheiro centenário que se curvou perante a tristeza da sua partida. Sinto o cheiro da bola de carne e da broa a sair do forno de lenha, demasiado quente para comer, mas impossível de resistir. Sou capaz de fechar os olhos e sentir a mata, os pinheiros, o correr com calma para não escorregar. Sou capaz de sentir as memórias vivas, embora já tenham passado anos e anos. Memórias nunca esquecidas de um tempo que não volta, mas que fica preservado dentro de mim.
Vou até à janela da cozinha e ainda a vejo sentada num banco, a olhar as hortas em frente, num cenário urbano-campestre que trazia as saudades que sentia das suas plantações. Vegetais e fruta com um sabor único que não volto a saborear! Olhava horas a fio para estas hortas enquanto a sua mente divagava para um passado no campo que estava perdido, mas sempre agarrado a si, porque ela e a natureza viviam numa melodia única, de uma dança que poucos conseguem dançar.
Hoje sei que, de outras formas e noutras dimensões, a minha avó me tem ensinado a apurar a minha essência. A cozinhar o meu verdadeiro eu. A temperar o meu caminho com pessoas bonitas — e com outras que me queimam para sarar feridas.
A minha avó era um ser especial. Um portal. Quando me resgato, honro a memória dela. Não pretendo saber o que a minha avó sabia. Cada uma de nós trouxe as suas valências no seu propósito de vida. Quero aprender a ser eu mesma. Sei que é isso que ela quer nesse espaço de tempo onde agora está.
Avó, honrar-te é a forma de amor mais bonita para seres recordada. Somos parecidas, cada uma no seu lugar. Continua por aí a ser a minha guia, porque sei que és. Não porque venha fazer aquilo que não pudeste ser, mas porque sabes que venho ser aquilo a que me propus e que tenho adiado tanto.
Continua a viver na alegria desse teu paraíso e, não te esqueças, escreve-me nos meus sonhos!



