Inês Biu Faro

por Inês Biu Faro

Partilhar:

Estamos a meio do ano e não me lembro de alguma vez ter feito um resumo de seis meses, como quando faço o resumo anual em dezembro. Por conseguinte, é um bom desafio.

Neste meio ano que passou, tenho lutado todos os dias para não me deixar vencer pelo cansaço, para não deixar que a frustração ganhe o espaço que não merece, e tenho tentado dar sempre todo o meu melhor para cuidar de mim. Embora saiba que sou capaz de mais, nem todos os dias é fácil e tranquilo cuidar de mim.

Há, realmente, muitas lutas internas. A começar por aquela com a qual me deparo há mais tempo e que é diária: a da autoestima física. É-me mais raro falar sobre isto, precisamente por ser uma luta e também uma grande vulnerabilidade. Sei que levarei o meu tempo para que deixe de o ser, mas, até lá, é um dia de cada vez.

Para meu bem, já consigo aceitar que a maquilhagem é um enfeite e que a uso quando quero e me apetece; a minha essência não sai com algodão e água micelar. Mas, depois do rosto, está o pescoço, o colo, os ombros, o peito, a barriga, os braços e começam os problemas… os pensamentos que me atiram abaixo. Ou, pelo contrário, visto umas calças novas ou um vestido que me assenta melhor do que esperava e reconheço que as minhas curvas são realmente sexys. Como me disseram uma vez: «As mulheres são como as estradas: quanto mais curvas, mais divertidas, excitantes e perigosas são.»

Demorei a associar, mas depois também me disseram: «Não gosto de conduzir em autoestradas. Gosto mais de caminhos sinuosos». Nem sei por que me lembrei de duas comparações com estradas, mas acho que foi o mais perto que quem mo disse encontrou para poder elogiar as minhas curvas bonitas.

Ainda assim, também sei que, apesar de saudável, estou acima do peso ideal para a minha altura e estatura. E, mesmo reconhecendo a minha voluptuosidade, sei que há partes que posso ainda melhorar. Tenho andado mais preocupada com a minha saúde mental e a física ficou para depois. Às vezes, o que me acalma a mente é passear sem horas nem destino, e isso acaba por ajudar o corpo, assim como a vencer a luta de comer por compulsão quando tenho um dia pior ou de fazer compras por impulso. E de onde vem esta luta e vulnerabilidade? Exato! Da pressão sociológica e familiar, da comparação, do que o mercado faz desde sempre para atrair as mulheres para consumirem o que, para o bem e para o mal, se calhar não precisam.

Nos últimos três anos, a minha saúde mental tem sido a minha prioridade e desleixei-me com a física, é verdade. Por arrasto, veio também esta luta com a autoestima que tão vulnerável me deixa. Embora adore esses elogios, sobretudo vindos de quem vêm, nem sempre me lembro deles ou nem sempre me vêm à mente quando mais preciso. O que me resta? Abraçar-me, amar-me com o que tenho, pensar numa hora do dia de cada vez e não deixar que as inseguranças tomem conta de todo o dia, arranjando distrações para não ter espaço para pensar em coisas más e feias sobre mim. Já não sou a minha pior inimiga, mas também não posso baixar os braços nesta luta.

Neste primeiro semestre do ano, reparei que a minha produtividade de escrita diminuiu um pouco. No entanto, fiquei verdadeiramente feliz comigo por não me culpar, por deixar para quando me sentisse com mais inspiração, para quando sentisse o formigueiro nos dedos.

Mesmo tendo realizado o sonho de comprar uma máquina de escrever – linda e maravilhosa –, preciso de tempo para me dedicar a ela, porque não é tão fácil como escrever num computador ou telemóvel, ou até mesmo manuscrito. Na criatividade escrita não me culpei, não me forcei. Fiz o que achava que me faria bem, mesmo que isso implicasse longas pausas entre cada crónica ou desafio.

Recuperei algo que sempre adorei: voltei a ter um diário manuscrito, onde até acrescento as horas a que estou a escrever, para o caso de escrever mais do que uma vez no mesmo dia. Incluí na minha rotina diária um período de tempo para escrever para mim, para começar o dia a libertar os pensamentos que possam atrapalhar ou ajudar a arrancar. Escrever nem que seja um «bom dia» a mim mesma, algum sonho, como correu a noite de sono… o que me apetecer quando pego na caneta. E, uma vez mais, devo um grande abraço de agradecimento à minha psicóloga. É que pegar na caneta e escrever ajuda-me cada vez mais a focar-me no momento, a pensar e alinhavar os pensamentos como deve ser – porque odeio riscar folhas! Meu rico corretor-fita. Ao contrário dos ecrãs, que têm sempre distrações e notificações e com esta facilidade de escrever e apagar em segundos, não há tanto cuidado em pensar no que escrever e como escrever. Embora também tenha de pensar no que escrevo quando quero partilhar com o mundo, vai haver sempre alguma recetividade, ou não, e gosto de ter esse cuidado.

E, a propósito de partilhar, tenho o meu blogue e as suas redes sociais completamente desatualizadas e, adivinhem, só em agosto, nas minhas férias, é que trabalharei sobre isso. Até lá, continuarei a escrever ao meu ritmo.

Nestes seis meses, continuei de braço dado com a terapia, de peito aberto para tirar pensos rápidos das feridas e começar o trabalho de as pôr ao ar, curar e cicatrizar. Porque nem só de autoestima sou feita, nem todos os dias são fáceis, e depois descubro mais um pouco de força em mim, mais uma coisa, situação ou pessoa que já me passam ao lado, pela cura, pelo meu desejo de ficar bem comigo mesma e só depois com os outros. Descubro a minha essência, tento manter o meu equilíbrio e enriquecer-me de técnicas para me fortalecer e descobrir de que sou feita e, mais do que agradar ao Mundo, agradar-me a mim.

Posso dizer que tomei uma decisão que também me foi terapêutica: apaguei o meu perfil na app de encontros que usava. Decidi «fechar para balanço». Tenho feito por descobrir o que quero para mim, para uma relação, se quero uma relação rotulada ou algo mais leve ou simples, ou apenas diversão. Mas, antes de tudo isso, preciso e devo ter esses encontros comigo mesma. E sabem que mais? Não sinto qualquer falta. Dar match, não dar match, começar a mesma conversa ‘n’ vezes, lidar com ghosting ou não, com rejeição ou não, correr bem ou não correr sequer… Fiquei muito cansada e decidi que precisava de uma pausa por tempo indeterminado naquela aplicação – sim, queridas leitoras, o Trovador ainda circula no meu coração, foi só mais um motivo para apagar a app, satisfeitas?

Bem, como resumir seis meses? Com jeitos ondulados, como os meus cabelos? É provável. Entre momentos muito felizes – como o meu aniversário e o encontro de emootivas na Feira do Livro –, outros tranquilos, outros menos bons onde os abraços e colo da família e amigos têm sido essenciais. E a máxima de sempre: cuidar de mim, ser mais para mim, amar-me mais a mim.

About the Author: Inês Biu Faro
Inês Biu Faro
Ainda não conhecia o abecedário quando começou a "escrever". Enchia cadernos com linhas "escritas" à sua maneira, com todos os seus contos de fadas e sonhos. Ao longo da escolaridade, aprimorou o gosto pela escrita e desde que se lembra que escreve diários. Não é fácil ser várias mulheres numa única e só os diários a compreendem, por falar consigo mesma. Escreveu, escreve e escreverá sempre com o coração, com emoção, de uma mulher para tantas outras, de um coração para tantos outros. Tem um manuscrito por editar. Será desta que sairá do forno? Esperemos que sim!

Deixa um comentário:

Também podes gostar de ler: