por Sónia Brandão

Adorei ter-te.
Adorei o quanto fazias parte da minha vida.
Adorei o quanto eras parte de mim, o quanto me fazias sentir completa.
Adorei os sorrisos cúmplices, os olhares secretos que partilhámos ao longo dos anos.
Amei-te.
Amei-te sem nunca o verbalizar.
Amei-te mais do que muitos outros que anunciei amar ao mundo.
Amei-te no silêncio da vida. Amei-te, apesar do ruído que sempre nos rodeou.
Amei-te até depois de te perder.
Pode parecer que estas palavras são uma declaração de amor depois do tempo, mas não: é a constatação do quanto a minha mente, o meu coração ainda te amam.
Amam o amigo que sempre esteve presente. Amam o homem que me fez sorrir entre as lágrimas perdidas para outros.
Amam o quanto foi desafiante amar-te.
Mas, um dia, também tu te apercebeste de quanto me amavas.
Do quanto éramos iguais nas dores do amor que partilhávamos, sem o denominar dessa maneira.
Mas, quando tudo parece perfeito, a vida resolve tornar a perfeição em realidade. E o que é perfeito raramente se torna real.
Quando os nossos olhares deixaram de ser leves e se tornaram pesados, quando os nossos silêncios deixaram de ser cúmplices para se tornarem incómodos: foi aí que a vida se tornou real.
Real, porque, depois do silêncio, vieram as palavras. Aquelas que mudam vidas e realidades.
O amor íntimo de cada um de nós ganhou vozes e esperanças em algo que nunca nos esteve destinado.
Porque existem amores que não devem ser acordados. Devem permanecer adormecidos para que os seus protagonistas vivam na ilusão da felicidade permanente. Quando não se respeita a regra, tudo pode desmoronar.
Foi isso.
O desmoronar da relação perfeita, entre dois humanos que se amavam no silêncio de cada um, que se respeitavam porque os limites ainda existiam, que se admiravam sem nunca questionarem o porquê.
Deixámos que o amor separasse a relação entre duas almas quase perfeitas, mas que nunca, em momento algum, foram feitas para seguir juntas.
As diferenças que nos permitiam amar tornaram-se montanhas impossíveis de subir.
O que, até então, eram apenas formas de ser, pensar, viver diferentes tornaram-se crateras impossíveis de atravessar.
E, depois de tudo pesado, depois de quase tudo vivido, antes de nos odiarmos, antes que a indiferença nos transformasse em más pessoas, saímos airosamente da vida um do outro.
Partimos para viver o que o destino nos reservou separadamente.
Mas, como no princípio, adorei.
Adorei ter-te comigo durante tanto tempo.
Porque nem sempre precisamos de amar como o ruído que o mundo espera.
Continuo a amar o homem que adorei, aquele que me visita no passado, aquele que não faz parte do meu presente.
Porque amar o homem do passado, hoje, é respeitar a minha história e não esquecer que amar em silêncio também é amar.
Adorei amar-te no silêncio.




