por Inês Biu Faro

Desde que me lembro que sempre me entretive muito bem no meu mundo imaginário, que acompanhou todo o meu crescimento e, hoje, é o que mais alimenta a minha criatividade.
Apesar de ter sido uma criança que deu trabalho por causa das birras intermináveis, aos poucos, a minha voz foi-se silenciando. Primeiro, com a família a aumentar em primos; depois, a escola, com colegas que nem sempre eram amigos (trocar de escola e amigos nunca é fácil), acrescido ainda o bullying durante o 8.º ano, a minha voz foi-se silenciando cada vez mais.
Habituei-me a escrever, quer poesia, quer prosa, e, embora tenha largado a poesia, a prosa ficou. E tem sido onde mais me apoio para me fazer ouvir.
Ainda que tenha bloqueios ou não saiba bem por onde começar, é pela escrita que conheço o que de mais bonito e profundo há em mim, é pela escrita que me dou a conhecer e que crio a minha voz. E, acreditem, se tenho uma voz tão bonita quando canto, a minha voz escrita é ainda mais bonita.
Houve uma altura em que me comparei muito ao meu irmão, que já tem cinco livros editados e ficou conhecido pela sua escrita crítica e sarcástica, entre outras coisas. Era eu mesma quem me comparava, quem achava que ele era melhor e eu não chegaria tão longe. Até ouvir o meu pai falar sobre a escrita de ambos os filhos e eu começar a convencer-me de que somos totalmente diferentes, escrevemos de maneiras e sobre temas diferentes. Não é possível um ser melhor do que o outro por isso mesmo. Singramos pela diferença.
E este travão cessou, deixei que a luz voltasse a sair de mim, a entrar para mim, a vir de onde tivesse de vir. Deixei a luz invadir-me inteira e comecei a dedicar-me à minha escrita como voz, às minhas emoções, aos meus romances, quer fosse para partilhar publicamente, só com algumas amigas ou só para o meu diário.
Soltei a minha voz pela escrita e assim tem sido cada vez mais. Sei que não sou nenhuma voz influente, mas continuo a ter noção do meu valor e da diferença que faço na vida de algumas pessoas que me leem e que nunca vi. Precisamente por dar voz ao meu coração e chegar aos outros, aperceber-me de que, de uma maneira ou de outra, passamos todos por processos semelhantes e que, enquanto há quem não consiga expressar-se, eu consigo e isso não só me ajuda a mim, como ajuda a esses tantos desconhecidos, e a conhecidos também, naturalmente.
Com o tempo e a convivência com «sobrinhos» emprestados, demais crianças e, sobretudo, com a Inês imaginativa, sonhadora e criança que continua a viver em mim, comecei a escrever pequenos contos infantis, musicais, divertidos e que a mim mesma me fazem rir e pensar: «Isto está mesmo engraçado. Fui mesmo eu quem escreveu?».
Assim como as minhas piadas subtis e momentâneas, aprendi a ganhar mais voz ao conhecer o meu sentido de humor, ao perceber que é único, seja por usar piadas secas, as chamadas dad jokes, ou frases tão boas e acutilantes que quem ouve se ri da minha espontaneidade.
Exato, também descobri a minha linda voz pela espontaneidade, por me permitir cada vez mais fazer o que quero e me apetece, seja ficar em casa a maratonar uma série, ou ir para um jardim ler ou passear — sozinha ou com amigos.
Este soltar da minha voz pela escrita tem-me ajudado a ganhar visibilidade para mim mesma, sobretudo no que toca à saúde mental. Quando tenho dificuldade em falar sobre alguma coisa, escrevo primeiro, leio para mim e falo sobre isso na terapia. A escrita acalma-me, emociona-me, faz-me rir, chorar e descansar. Escrever dá-me voz, dá-me luz, dá-me independência e uma vontade enorme de editar um livro e partilhar com todos os que amo e aqueles que não conheço, mas que se sentem tocados por mim.
No fundo, é a escrita que me tem devolvido o meu poder pessoal, a minha liberdade, independência e força para assumir a mulher incrível que sou. É aqui que mostro tudo de mim, para quem quiser ver.
E, quando abri o caminho para a luz regressar a mim, ou voltar a sair de mim, descobri um caminho para nunca mais parar de escrever, para nunca mais calar a minha voz, para nunca mais a silenciar (vá lá, não sou propriamente uma sereia).




