por Ana Cristina Gomes

Há umas semanas vi o último episódio da oitava e última temporada de Outlander e ainda não estou a conseguir lidar com o fim da série. A morte de Jamie ainda reverbera em todo o meu ser numa dolorosa despedida anunciada, mas difícil de integrar. As lágrimas foram mais do que muitas. O vazio que fica é imenso. Porque nunca me tinha apegado tanto a uma história e, agora, fazer o desapego deste amor é excruciante.
Eu sei que ainda falta ser publicado o último livro da saga e que será diferente da série. Ah, tivesse eu coragem para reler os dois volumes do livro 9, «Diz às Abelhas que Parti», para tirar dúvidas sobre o que se passou neste final televisivo! Mas não sei se tenho forças para enfrentar o castelo de livros por ler e ficarem mais tempo desterrados nessa torre solitária. Por isso, fico-me pela espera do livro 10 (ansiosa por saber o título), e calculo que também terá como desfecho a morte de Jamie e, possivelmente, da Claire. Porque há um ciclo que é preciso fechar. E o ciclo Outlander está a fechar-se, mas o amor que fica em nós, fãs, nunca irá morrer. As memórias ficam. Perduram no que mais nos marcou.
O que me leva à penosa questão: será que sou capaz de lidar duas vezes com a morte destes meus personagens do coração? Como consigo dizer adeus a um amor à primeira vista?
Na minha vida, Outlander ainda está no estágio da infância. Embora Outlander seja anterior à pandemia (anterior a 2020), já tinha passado pelos livros nas livrarias, já tinha ouvido ruídos à volta da série, mas nem sequer tinha olhado para uma linha ou para uma cena. Até que a pandemia chegou e, na segunda-feira, dia 16 de março de 2020, às 21h25, no AXN, é transmitida a primeira temporada da série. E porque me lembro eu dessa data? Porque foi o primeiro dia de teletrabalho, quando o mundo se fechou em casa. Porque foi nessa noite que me apaixonei para sempre por Outlander, pela história de amor de Jamie Fraser e Claire Beauchamp e pelo misticismo da Escócia. Foi o som da Escócia e das Terras Altas que fez ecoar em mim uma paixão de outras vidas. Reminiscências de outras eras acordaram em mim. Ali fiquei eu, de corpo dormente em memórias de que não me lembrava e fascinada pela história daqueles dois.
Foi amor à primeira vista e para a vida toda.
No dia seguinte, rendida logo após o primeiro episódio, não hesitei e lá fiz a encomenda do primeiro livro, «Nas Asas do Tempo», que foi lido muito antes de terminar a reposição da primeira temporada da série. Seguiu-se o segundo volume, «A Libélula Presa no Âmbar», para conseguir ler antes de a série ser transmitida na televisão. Porque isto de ser leitora tem destas coisas, e há que ler antes de ver. Porque eu prefiro sempre ler e só depois ver as séries. Há tanto que se perde na adaptação para a televisão. E, nesta saga, mesmo a série sendo q.b. fiel à história, há tanto que fica de fora. Ler é outra magia que só quem a vive percebe.
Estava descoberto o meu vício de 2020. Há algo de inexplicável, para mim, nesta saga. É algo visceral. Demasiado emotional. Tão intensamente profundo. De músicas avassaladoras de sentidos. Fiquei presa às Terras Altas da Escócia, às suas paisagens, aos cenários, às suas gentes, às tradições. Algo tão próximo de mim que se tornou tão meu. Não é suspirar pelo ator que desempenha o Jamie (sim, é giro), mas aquela história de amor deixou-me perdidamente apaixonada por Jamie e Claire. Não um amor perfeito, mas um amor real de paixão, de erros e discussões, de sacrifício e dádiva, de entrega e perdão.
De realçar que, na série, Caitriona Balfe e Sam Heughan, os atores principais, são de longe a dupla mais bem conseguida da história dos castings para televisão, cinema e semelhantes. Aquela química jamais outro casal na ficção conseguirá reproduzir.
Nem o tamanho dos livros me demoveu da leitura. Quem me conhece sabe como os livros me são tão amor e que ando de calhamaços atrás. E estes levaram-me a uma tão boa insanidade. Ia ao escritório de portátil e Outlander atrás. Carregada. A ler cada página até entrar no autocarro (sim, eram momentos cruciais nos livros, era impossível largar o livro). Devia parecer louca. Mas pouco me importa. Adoro estas loucuras das palavras em mim.
Foram uns livros uns atrás dos outros. A aguardar pacientemente os novos volumes. A pôr em dia as temporadas já exibidas. Até que chegou o momento em que os livros estavam todos lidos. E as novas temporadas chegavam a conta-gotas. O que se tornava num desespero agoniante.
Algures no tempo e após ter terminado a leitura de todos os livros publicados (alguns estão divididos em volumes), a matemática trouxe-me estes bonitos e sugestivos números que plasmam uma verdadeira paixão.
Em apenas 36 meses, foram lidos os 13 livros, com 10 298 páginas e 915 capítulos.
Mais do que livros, Outlander é uma história que se entranha nos poros da nossa pele, nas frestas da nossa alma e se aloja no nosso coração. Foi um abraçar terno e fraterno de uma história de amor real, feita de altos e baixos, de desafios e obstáculos, de conquistas e vitórias embebidas num amor de conexão tão profundo e intenso. Renasci em amor ao ler amor simples, sincero, honesto e terra a terra.
Outlander é um mundo mágico, cujo feitiço nos envolve para sempre.
«Se as minhas últimas palavras não forem “Amo-te”, tu saberás que foi porque não tive tempo.» Uma das mais emblemáticas frases de Jamie, que uso para terminar este desabafo vindo de um coração desolado.
Grito à vida e a todos os que queiram ouvir: Outlander não é daqueles amores à primeira vista e que desaparecem com a chegada de outros. É um amor que se fortalece com a chegada de novos amores. Porque cada amor é único e irrepetível. Aconteça o que acontecer, Outlander arrebatou-me o coração para sempre.
Jamais poderá existir algo que se possa atrever a imitar Outlander. Digo às abelhas para nunca deixarem ir Jamie e Claire dos nossos corações.



