por Sónia Brandão

«Sabes, sinto que a minha terra está a deixar de ser minha, porque faltam as pessoas, as pessoas que conheci, e não estão mais aqui. Agora, só existem os caminhos, as casas vazias. As pessoas que transformavam este lugar em casa já partiram.»
Esta frase, dita em tom de desabafo, foi a conclusão de alguém que voltou depois de mais de 15 anos fora do país; foi a conclusão natural de alguém que esperava que o tempo tivesse parado de correr, que esperava ainda encontrar o que tinha deixado anos antes igual.
Esperava voltar a casa…
O que faz uma casa ser casa?
Não é o conforto que ela possa ter.
Não é a beleza que atrai.
São as pessoas.
As pessoas que a habitam, a certeza do sorriso que se espalha pelo rosto e se apodera dos olhos.
O abraço que aperta sem sufocar.
São as palavras que aconchegam.
Também podia ser eu a dizer esta frase, mas eu vivi os acontecimentos, as perdas.
Eu tive tempo para me adaptar às mudanças, mesmo que algumas tenham sido mais demoradas do que outras.
Mas, se hoje chegasse à aldeia que chamo casa, também teria dificuldade em perceber onde estava.
Muitas daquelas a quem chamei «tia», durante anos, já não se encontram aqui.
Muitas daquelas pessoas que, durante anos, encontrei diariamente partiram.
Mesmo permanecendo na minha memória, já não me podem chamar pelo nome.
Já não me podem dizer piadas idiotas, ou perguntar pela minha mãe, pela minha tia, pela minha avó.
Muitas das pessoas que me ajudaram a «criar», a «educar», já deixaram a «casa» onde todos partilhámos momentos, onde todos rimos, onde todos chorámos, onde todos fomos felizes, mesmo sem o saber.
Seria redutor falar de umas pessoas e não falar de outras, porque todas fizeram parte da grande «casa» onde todos vivemos.
Partilhávamos noites de transição entre a tradição e a novidade.
Partilhavam rotinas de trabalho.
Partilhavam a vida. Cada uma daquelas pessoas fazia parte da vida de todos.
A privacidade não existia.
Mas existiam momentos puros de magia.
A casa da minha avó tinha aquilo que, como diz alguém de quem gosto muito, é o sabor de um ovo frito ao lume, mesmo em pleno verão. Nunca nada terá aquele sabor — é impossível reproduzir.
As coisas mais simples são aquelas que ficam dentro de nós.
E, sim, são as pessoas que transformam qualquer sítio em casa. São aquelas que esperamos encontrar sempre que regressamos, mas, por vezes, a volta só torna real o quanto o tempo avançou, porque aquilo a que chamamos casa foi perdendo pedras ao longo dos anos.
E regressar, por vezes, parece chegar ao vazio, porque tudo é diferente.
Parte da «casa» desapareceu.




