por Sónia Brandão

Evito o olhar inquisitivo que me observa. Não gosto de ser o centro da atenção dos outros. Sei que o sou hoje, aqui, mas prefiro acreditar que me encontro num espaço protegido, onde posso falar sem que sinta o julgamento sobre as minhas palavras.
«Podemos começar?», ouço a pergunta e limito-me a acenar em concordância. Hoje, nenhuma de nós tem vontade de fazer conversa de café.
«Fiquei preocupada contigo quando li as mensagens que me enviaste.» Volto o meu olhar para a pessoa que tenho em frente a mim, pela primeira vez, hoje. Esta pessoa não é minha amiga, mas, por vezes, é a minha guardiã. Nos meus momentos mais baixos, é quem procuro, é a quem digo as verdades mais escondidas dentro de mim.
«Desculpa. Não era essa a minha intenção. Eu estou bem, mas senti que tinha chegado o momento de partilhar este período da minha vida com alguém para além da minha mente.»
«Se estás preparada para o fazer, estou aqui para ouvir.» Segue-se mais uma breve troca de olhares. «Por onde queres começar?»
Na verdade, não sei se quero falar, mas tenho de o fazer. Preciso de tirar este peso gigante do meu peito. Preciso que os segredos até aqui guardados, dentro de mim, sejam verbalizados. Preciso de o fazer para os exorcizar da minha vida, ou, pelo menos, tentar.
«Já sabes de quem falo.»
«De ti. Eu quero que fales de ti. Não importa o que o outro fez ou disse. Eu quero que me digas o que sentiste.»
Eu sei que sim. Neste espaço, eu sou a pessoa importante. A forma como deixo o exterior afetar-me é o que me trouxe aqui.
«Para ser justa, eu nunca fui agredida ou mesmo insultada. Foi tudo muito subtil da sua parte. Por vezes, preferia que isso tivesse acontecido, era um sinal de que as minhas emoções teriam justificação para o mundo e, principalmente, para mim.»
Respiro fundo e continuo: «Na maioria das vezes, o que acontecia eram críticas, veladas ou frontais, a comportamentos, a atitudes, a opiniões. Um desvalorizar completo de quem eu era até aí. Nada do meu passado tinha importância. Parecia que eu seria perfeita aos seus olhos se nunca tivesse vivido até ele.»
«Como te sentiste nesses momentos?» Ouço a pergunta e sinto uma lágrima a cair dos meus olhos fechados, o que faço sempre que quero ou preciso de reviver algo do passado.
«Inicialmente, nas primeiras vezes, contestei, continuei a ter a minha opinião, a fazer valer o que eu era, mas depois, com o passar do tempo, com a continuidade, cansei-me…»
«Cansei-me de ser eu, cansei-me de me defender do indefensável, de existir, e calei-me, calei-me…» Termino com um soluço profundo que abre a torneira das lágrimas. Permaneço neste pranto por vários minutos, sozinha.
«Queres fazer uma pausa?», ouço a pergunta, ainda perdida no meu colapso emocional.
«Não.» Respiro fundo e continuo: «Na época, não percebi o quanto de mim se estava a perder, nem percebi no que me estava a transformar. Foram precisas algumas pessoas para me questionarem sobre isso. Recordo-me de uma conversa em que alguém fez a seguinte observação depois de termos comentado alguns momentos: “Onde estás? Pareces tu, ouço a tua voz, mas não és tu. Pareces um holograma de ti, alguém muito parecido contigo, mas que não tem a tua essência.” Fiquei dias a pensar nesta observação. Eu sentia exatamente isso, mas recusava-me a acreditar que me estava a perder nas voltas da vida.»
«Foi essa conversa que te fez mudar?»
«Eu não mudei. Na verdade, tudo piorou. Se até ali a censura a mim era limitada, a partir de então tudo se tornou bastante letal. A chantagem emocional apareceu com a força de uma tempestade. Talvez eu tenha deixado transparecer que estava a tentar recuperar-me, não sei, mas tudo piorou.»
«Como?»
«Acho que até para respirar precisava da sua autorização. Tornei-me naquilo que nunca aceitei: numa bela companhia, sem vontade, sem objetivo. Comecei a fazer ainda mais coisas contrariada. Deixei de ter vontade própria. Se me diziam “vai para a direita”, eu fazia-o; se me diziam “vai para a esquerda”, esse era o meu caminho.» Continua a ser penoso pensar nisso, porque não percebo como abdiquei das minhas vontades, da minha vida assim, num simples piscar de olhos, sem perceber que o estava a fazer.
«No meio de toda esta aniquilação de mim, consegui manter alguma coisa intacta, só para mim. Mantive os meus amigos e a minha família para me equilibrar. Se estava longe, eu aparecia, eu vivia, mas tinha sempre aquela sombra a pairar na minha cabeça, nas minhas decisões.»
«Culpas-te?»
«A culpa por me ter colocado ali foi minha. Eu aceitei aquela forma de ser para comigo. Não sei como ou onde aconteceu, mas sei que foi uma escolha minha. A pergunta que me faço diariamente é outra: “Como?” Como aconteceu sem que eu me apercebesse?»
«Acontecem muitas coisas na nossa vida sobre as quais não temos controlo. Talvez tenha sido somente isso.»
«Não foi só isso.» Sei que não.
Eu cedi o controlo de mim, das minhas vontades, da minha vida a outra pessoa, livremente, sem me aperceber de que o estava a ceder. Não é algo que eu não podia ter controlado. O que eu preciso de descobrir dentro de mim é o “Porquê?”. O porquê de o ter feito.
«Durante a minha vida, muitas vezes tive de ser a condutora de outros e, com ele, achei que podia finalmente descansar no banco do passageiro. Mas ele aproveitou-se desse facto para me colocar na mala do carro, onde eu não podia ver nem ser.» Eu sei que é uma metáfora para tudo, mas é a verdade.
«Gostas de ser tu a conduzir?»
Demoro um pouco a responder: «Nem sempre. Por vezes, gosto de ser conduzida, mas agora cada vez menos o deixo acontecer. Tenho medo de para onde me podem levar. Da última vez, o resultado não foi bom, apesar de me ter trazido até aqui.»
Trocamos um breve sorriso, o meu ainda com marcas de lágrimas.
Olho para o céu e respiro fundo. Coloco os óculos de sol e deixo-me ser beijada pelo sol. Sei que este foi somente mais um passo na longa jornada que ainda tenho pela frente.
Mas estou mais próxima.