por Daniela Rodrigues

Depois de quase dois meses estranhos e um atraso na menstruação, surge um teste positivo: aquelas duas risquinhas rosadas. Ele disse para abortar. Eu respondi-lhe que não e o assunto morreu ali.
Registei, em selfies caseiras, cada semana: a evolução da barriguinha, embora esta só se tenha notado visivelmente a partir dos seis meses. A mãe de uma amiga disse que, pelo formato da barriga, iria ser menina. Errou. Não tive uma sessão fotográfica, nem um chá de bebé e, muito menos, a hipótese de registar aquele tempo numa barriga de gesso.
Na ecografia, mostrou-se logo menino! E o seu nome quis o destino que não fosse um acaso, mas sim algo mais profundo, sentido e necessário.
Foi uma gravidez santa!
Chegada a reta final, não dava sinais de querer sair do quentinho, do aconchego, da proteção, para o frio do inverno que se fazia sentir cá fora.
Mamãs, já ouviram falar do “toque maldoso”? Pois, a obstetra que me seguia fê-lo, para rebentar a membrana e acelerar o processo. Dois dias depois, a seguir ao jantar, espirrei e notei que perdi um pouco de líquido. Nunca me tinham dito que as águas podiam “rebentar gradualmente” em vez de ser um fluxo de uma só vez. Por este motivo, fui chamada de irresponsável quando dei entrada nas urgências, horas depois, com contrações de 20 em 20 minutos.
Naquela madrugada, fizeram-me análises duas vezes, com a justificação de que seria para tratar da epidural – coisa que nunca me chegou.
Tinha fome. Deram-me um chá frio de camomila e disseram que não podia comer nada.
Estava desconfortável e, deitada de lado, ficava muito melhor e com menos dores. Quando mudava para essa posição, vinha logo alguém ralhar que tinha de ficar deitada de costas. Caso contrário, não ouviam o coração do bebé.
As auxiliares, enfermeiras, médicas que ali acorriam, estavam ali por obrigação, de má cara e sem empatia. Menos uma. Houve uma enfermeira boa no meio daquilo – a única que tinha modos para falar com as pessoas, cuidado, sorriso, palavras doces e empatia.
Estava a começar a hiperventilar e a funcionária que se apercebeu disse-me, bruscamente, para controlar a respiração, como me tinham ensinado, e virou costas. Ninguém me tinha ensinado nada. Era o meu primeiro filho. Tudo aquilo era desconhecido e dava medo. Eu tinha medo que ele nascesse, que eu não soubesse cuidar dele, que não fosse suficiente, que não fosse capaz, que não conseguisse protegê-lo… e tudo isso se arrastava com aquela frieza de quem entrava e saía daquele quarto.
Chegou a minha vez. Levaram-me para a sala de parto e nem me lembro como. Diziam-me para fazer força. Não resultava. Cortavam mais um pouco (a episiotomia gigante que deixou marcas invisíveis). Ele não saía. Disseram que iam buscar ventosas – tentativa falhada para as aplicarem. Até que a mesma obstetra do toque maldoso se lembrou de dizer que podia fazer força do meu peito para baixo, para o obrigar a sair. Dou graças pela parteira que estava na minha frente lhe ter recusado a ideia. Ela saiu porta fora, naquele instante, e nunca mais a vi. E o meu menino nasceu, saudável, sem esse ato macabro que ela sugeria antes.
Deram-me um jantar que não consegui comer. E passei ao ato seguinte: ter o meu menino no meu colo e dar-lhe de mamar.
No dia seguinte, a enfermeira bondosa do dia anterior foi ver-nos. Explicou que a anestesista se recusou a dar-me a epidural e, ainda hoje, não sei porquê.
Sabem o que nos dizem de só podermos dar a mama de três em três horas? Eu dava em intervalos bem mais curtos e contava o tempo para saber as horas que tinha de dizer à enfermeira, caso entrasse no quarto naquele momento. Elas iam passando ali e perguntavam a que horas o bebé tinha mamado. Se fosse um intervalo de tempo menor do que as três horas, ralhavam connosco, mães.
Ele perdeu peso. Tinha de lhe dar a mama e um suplemento de biberão a seguir. Foi uma facada para mim. Como assim? O meu leite não era suficiente? Eu não era suficiente?
Sabem o que também não nos ensinam antes? A subida do leite varia de mãe para mãe. A minha aconteceu depois de ter alta. Por isso é que o meu leite não era suficiente no início. Depois, foi. Paramos o suplemento e ele ganhou peso e cresceu de forma saudável.
Teve os sonos trocados durante cinco meses. Adormecia melhor na cozinha. E eu gostava mais de o ter a dormir comigo do que estar longe dele. Mas até que nem foi assim tão extremamente desgastante.
Era horrível quando ele chorava e eu não percebia porquê, depois de já ter tentado tudo. Sentia-me incompetente. Mas sabem que mais? Nós vamos aprendendo, com o tempo.
Aprendi que não há ninguém melhor que nós para cuidar dos nossos filhos e que é exatamente de nós que eles precisam. Somos sempre suficientes para eles. Até mais que isso.
Os sorrisos, as gargalhadas, as coisas engraçadas, os primeiros sons, os abraços, os beijinhos babados, os dentinhos a nascer e eles a gatinhar, a dar os primeiros passitos ou a correr pela casa a fazer traquinices… compensa todos os dias que nos sentimos mais fracas, insuficientes ou incapazes.
E cada «amo-te» deste pequeno ser, que nasceu de mim, apaga cada réstia de memória menos boa do tempo de aprendizagem. Afinal, nós, mães, (re)nascemos com eles!
Nós conseguimos. Eu consegui! E ele é a maior prova disso.
Como dizem os mais velhos: “dores paridas, dores esquecidas”.
Se eu pudesse, tinha uma equipa de futebol! (Ou mais.)




