por Sónia Brandão

Hoje, dei por mim a recordar momentos que marcaram, que me tornaram no ser que sou hoje.
Desde que me recordo, sempre procurei os olhos dos outros.
Talvez porque ouvi demasiadas vezes que «os olhos são o espelho da alma», sempre me senti inquieta na presença de quem não me conseguia olhar nos olhos.
Muitas vezes, pedi para me olharem nos olhos para que me conhecessem, para que percebessem aquilo que faltava dizer por palavras.
Como tal, tenho algumas belas trocas de olhares.
Algumas nunca mais consegui repetir.
Foram demasiado marcantes para que as conseguisse esquecer, mesmo sabendo que nunca poderiam acontecer de novo, por terem representado aquele momento, aquela pessoa.
Mas isso nunca me impediu de tentar…
Tentar de forma inconsciente…
Aqueles olhos.
Pouco ou nada me lembro da pessoa que os detém.
Talvez já nos tenhamos cruzado um milhão de vezes na vida.
Talvez sejamos vizinhos que se cruzam no elevador sem que de facto se olhem.
Não sei.
Mas sei que aqueles olhos curiosos, intensos, poderosos, me marcaram como poucos.
Estávamos em grupo, um grupo de desconhecidos que, por obra da curiosidade inerente ao ser humano, se juntou para passar umas horas, falando de temas banais.
Estivemos juntos, em lados opostos da sala, por uma hora ou mais, sem que nenhum de nós levantasse o olhar no mesmo segundo.
Mas então…
Então, no meio de uma frase, de uma opinião, olhei-o. Como seria esperado, estavas mesmo em frente a mim e, nesse segundo, olhámo-nos nos olhos e ficámos presos.
Presos porque não mais desviámos os nossos olhares.
Parecia aquela magia irreal que, vinda do nada, nos deixa sem vontade, sem forças para tomar decisões.
Ficámos colados um no outro o resto do tempo.
Perdidos em jogos de olhares.
Comunicando telepaticamente, ao mesmo tempo que mantínhamos conversas paralelas, sem nos desviarmos um do outro.
Não sei da parte dele, mas da minha parte posso afirmar que foi algo de poderoso.
Não só pela intensidade, mas pelo tempo.
Senti que o conhecia sem sequer saber o seu nome.
Logo depois, fizemos um jogo de olhos vendados. Só aí perdemos a ligação.
Esse foi o momento em que conseguimos escapar.
Foi ali que seguimos a nossa vida.
Nunca soube o seu nome.
Nunca soube nada sobre ele.
Mas, através daquela intensa troca de olhares, soube quem poderia ser.
Alguém que vive intensamente, sem medo de se mostrar indefeso, sem medo de se deixar conhecer pelo sonho que comanda a vida, sem medo de apresentar a sua alma despida dos adornos das palavras.
O olhar que recordo.
O olhar que marca, mesmo sem palavras.
Os olhos que não mentem.
Os olhos que falam.
O olhar que procuramos na finitude do dia. Os olhos que nos guiam entre os sonhos que povoam as mentes inquietas.
A alma que nem sempre apresentamos ao mundo, que se esconde no olhar entre iguais.
Belos encontros guardados na memória eterna da vida.




