por Sónia Brandão

Sinto os nossos lábios afastarem-se. Com algum pudor, abro os olhos, mas não te olho. Lanço os meus braços em redor do teu pescoço e procuro a luz do candeeiro de rua que nos rodeia. Perco-me na luz que me cega.
«Por que não o olhas?», ouço a minha consciência questionar. Fecho os olhos e respondo calmamente à minha ansiosa consciência: «Não é o momento. Se o fizer, talvez transmita mais do que quero.»
Mantemo-nos abraçados por longos minutos. Sinto que preciso de mais algum tempo para o olhar. Ele sente o mesmo, pressinto.
«Olha-o, percebe o que ele sente. Talvez assim percebas o que sentes», insiste a minha mente.
Mesmo contrariada, faço o que me é imposto. Afasto-me lentamente e, antes de procurar outro beijo, olho-o nos olhos.
Não me transmite nada. Nada…
«Talvez sinta o mesmo que tu, que é um erro», ouço a minha consciência. «E afasto-me?», questiono.
Não. Continuamos a beijar-nos, à procura do que esperávamos encontrar no outro, mas que ainda não chegou.
«Parece que a promessa se desvaneceu. Aqui, não vais encontrar nada», volta a minha mente a gritar.
«Calma, deixa-me viver mais um bocadinho. Por vezes, as coisas demoram a despertar», imploro a mim própria.
Depois de algum tempo, afastamo-nos. Não sei o que transmito, mas tento esconder o que penso e o que sinto. Não o quero magoar com a minha indiferença a este momento.
Sigo o protocolo do pós e faço o esperado. Mantenho-me por aqui.
«Nada vai mudar, sabes?», volto ao diálogo interno assim que nos despedimos.
«Pode mudar!», insisto.
«Podes enganar-te e esperar, mas sabes que nada vai mudar.»
«Por vezes, a atração aparece depois. Precisamos de estar juntos, e aí tudo vai surgir», insisto de mim para mim.
A minha racionalidade diz-me a verdade. O meu coração prefere ainda acreditar no que pode acontecer.
Continuo nesta batalha interna, nesta conversa que me vai desgastando dia após dia.
Eu quero viver esta história, mas pelo menos uma parte de mim sabe, com toda a certeza, que é uma miragem criada. O caminho é errado.
Acabamos de fazer amor. Mesmo não sendo perfeito, deveria sentir mais do que indiferença neste momento. Continuo a fazer o que é suposto, mas a minha mente está noutra frequência.
«Sabes que podes acabar com este tédio, com esta suposta relação, quando quiseres?»
«Porquê?», pergunto-me, mesmo sabendo a resposta.
E sou eu que a dou: «Porque nada te obriga a viver contrariada, infeliz…»
«Eu estou feliz!», grito para mim.
«Feliz? Não. Estás meio que conformada, porque quiseste isto e, por agora, impões-te a vivê-lo, mesmo sabendo que não há nada aqui.»
Perco-me em pensamentos intrusivos. Volto aos momentos em que pensei ser feliz e já não consigo negar: não o fui.
Limitei-me a segui-lo. Ele parecia feliz, e eu continuei a embarcar na sua felicidade, esquecendo a minha.
«Existem coisas que não se conseguem criar. Ou tu amas, ou não amas», respondo-me prontamente.
«Eu amo!»
«Amas a ideia. Mas a verdade que vives, não.»
Deixo-o dormir e saio da cama, do quarto. Procuro a solidão que a escuridão me dá para pensar de verdade em tudo.
Sempre amei a ideia, porque parecia o ideal. Raramente me preocupei com o resto. Esperava que estivesse aqui entre nós, meio adormecido. Agora percebo que não.
O toque entre nós sempre foi banal, o normal entre seres humanos, sem cumplicidade, sem o depois que quem ama desperta. Os beijos foram banais. Serviram para me fazer criar diálogos de mim para comigo, mas não com ele.
As conversas tão normais entre pessoas que se amam e buscam mais nunca chegaram. Porque eu as limitei, as sabotei. Se chegassem, teria de enfrentar esta verdade que agora assumo.
Gosto dele, mas gosto muito mais da ideia de gostar.
Tudo o que temos é banal. Nem a parte física salva esta relação, apesar de manter muitas vivas durante anos.
«Fala com ele.»
«Não é o momento.»
«Quando, então? Daqui a dez anos, quando nada de ti restar?»
Mesmo não querendo ceder, sei que a minha mente tem razão.
Espero, na escuridão, o nascer do sol.
Porque, quando ele chegar, sei que tenho de enfrentar a realidade com os meus olhos, sem os espelhos que até aqui nada refletiam.
As decisões acontecem dentro de nós. Basta escutarmos o que não queremos para percebermos o caminho que devemos percorrer.
Novas janelas abrem-se sempre que a porta que julgávamos ser a principal se fecha.