por Estefânia Barroso

Inês abriu os olhos para mais um dia com esforço. Deixou-se ficar, na cama, olhando para o teto, procurando não pensar em nada. Sabia de antemão que estes primeiros momentos do dia eram aqueles que ainda lhe davam algum sossego à mente e à alma. Provavelmente, por ter o cérebro meio adormecido, os pensamentos tristes e algo obsessivos não chegavam logo. «Vê as coisas pelo lado positivo, Inês. Ainda consegues dormir umas quantas horas por noite e dar algum descanso à tua mente!» Inês sabia que, assim que pusesse os pés no chão, as lágrimas começariam a correr e os mesmos pensamentos tristes recomeçariam a rodopiar na sua cabeça. Não valia a pena acreditar que hoje seria diferente. Era assim há tanto tempo…
Inês odiava-se por se sentir assim. «Relações começam e acabam» — pensava ela, tentando ser mais racional. «Nunca ninguém morreu de amor, certo? Pelo menos, nunca foi essa a razão que se colocou na certidão de óbito» — repetia Inês para si própria. E o facto é que, bem lá no fundo, Inês sabia que não iria morrer de amor. Mas, caramba, sentia-se tão triste. Tão à deriva…
Tomou coragem, ao fim de um largo tempo a tentar convencer-se para isso, e saiu da cama. Tinha decidido que hoje não ia ser como os outros dias tristes que ficaram para trás. Hoje não iria chorar! Ia levantar-se, tomar um banho e sair de casa. Ficar a pensar em como a sua vida se tinha alterado, de um momento para o outro, chorando sobre as suas mágoas e tristezas, não lhe tinha servido de muito nos últimos tempos, portanto… hoje seria o dia um sem lágrimas! Iria dar um passeio pela cidade. Iria tomar o pequeno-almoço numa qualquer esplanada. Levaria um livro para mergulhar num mundo e numa história que não era a dela. Tinha quase a certeza de que a vergonha de chorar à frente dos outros, e sozinha, seria maior do que a tristeza que sentia! Pareceu-lhe um bom plano e logo o pôs em prática.
Inês tomou um banho prolongado, procurou vestir-se com cuidado, maquilhar-se com esmero e secou o cabelo com todo o pormenor. Queria sentir-se, tanto quanto possível, bem na sua pele. Queria que a imagem que o espelho lhe devolvia fosse mais bonita e positiva do que aquela que vira nos últimos tempos. Tinha decidido que este iria ser o primeiro dia de superação da mágoa e da tristeza! «E vou conseguir» — pensou de si para si.
Quando Inês saiu de casa, o seu propósito já apresentava alguns frutos. Sentia-se um pouco melhor na sua própria pele. Observara-se com ar crítico ao espelho, mas concluíra que a maquilhagem tinha feito milagres. Apenas as olheiras não tinham ficado totalmente disfarçadas, mas, tendo em conta os dias anteriores, até estava com um ar simpático. Conduziu até à cidade. Passeou pelas ruas, observando tudo com atenção. Procurou um café que não lhe trouxesse memórias do passado. Tomou o pequeno-almoço enquanto lia o jornal com as primeiras notícias do dia. Depois decidiu ir até ao jardim, ler o seu livro. Contudo, uma vez lá, percebeu que essa decisão era a mais difícil de manter. O cérebro teimava em querer voar para aquelas paragens que ela queria apagar, naquele momento. Quando dava por ela, já o pensamento tinha voado para Nuno e para a relação deles. Na sua cabeça, um pensamento obsessivo continuava a girar, em loop, desde o dia da separação:
Como iria viver sem o Nuno? Havia que admiti-lo: Inês já não sabia ser sem o Nuno. Ela já não existia sem aquela presença ao seu lado. Como iria sobreviver sem ele, sem o seu apoio, sem os seus ouvidos atentos para os seus problemas diários e sem a sua capacidade de resolver as questões do dia a dia de que nunca se tinha ocupado? As perguntas continuavam a girar, loucamente, na sua cabeça.
Olhando para o semblante aparentemente calmo de Inês, ninguém poderia imaginar no turbilhão de pensamentos que teimavam em passar pela sua mente. Tão calma por fora e tão destruída por dentro…
Inês fechou o livro. Era inútil insistir: os pensamentos continuavam, obsessivamente, no mesmo lugar. Para se entreter, passou a observar o que a rodeava: um homem sentado, no banco ao lado, conversava animadamente através de uma videochamada. Mais à frente, uma jovem passeava o seu cão, sorrindo para a vida. Acolá, duas mulheres conversavam animadamente, sabe Deus sobre o quê! E, olhando para eles, deu-se conta de algo tão simples que quase ficou surpreendida: a vida continuava! As pessoas conversavam, sorriam, faziam planos, riam de pequenas insignificâncias… E ela? Ela tinha parado. Ela estava suspensa num ponto que deixara de existir. Esse pensamento, vindo não se sabe de onde, atravessou-a como um relâmpago. A dor que sentia, a dor de ter perdido o Nuno, comandava os seus dias. Ela tinha ficado congelada neste momento, mas tinha de sair dele. Ela simplesmente não queria que a dor de já não ser um casal com o Nuno comandasse os seus dias. Ela tinha de voltar a ser uma, autónoma e independente como sempre fora, e não apenas a metade de um casal que já não existia.
A verdade é que aquele dia tinha sido diferente. Ainda que tivesse vontade, não chorara ao acordar. Arranjara-se com cuidado. Saíra de casa. Caminhara sozinha. Escolhera um café sem memórias. Abrira um livro — mesmo que não conseguisse ler. Tinha tomado pequenas decisões que eram só suas. E isso trazia-lhe uma estranha sensação de paz.
Talvez não sentisse saudades do Nuno, afinal — pensou ela. Talvez sentisse saudades da versão de si mesma que acreditava só existir ao lado dele. Mas ali, no banco do jardim, começou a perceber que ela podia voltar a existir — sem ele, e provavelmente estaria bem!
A ideia ofereceu-lhe um ligeiro calor na alma. Sentiu que descobrira uma porta que, afinal, sempre estivera entreaberta.
Inês levantou-se devagar. Guardou o livro na mala e respirou fundo, sentindo o ar frio entrar e sair com uma leveza nova. Hoje tinha sido o primeiro dia sem lágrimas. Um dia pequeno, mas um começo.
Ao afastar-se do parque, murmurou quase sem voz:
«Talvez eu precisasse do fim desta relação. Talvez isto tenha sido uma oportunidade para me reencontrar. A verdade é que a ferida está cá: funda, feia, ainda a sangrar. Mas, curiosamente, percebi que se me apresenta uma estrada nova que nunca iria percorrer se continuasse presa a algo que já não existia.»
«Eu vou conseguir ser só eu» — pensou. «Hoje tenho a certeza de que poderá levar o seu tempo, mas vou conseguir caminhar sozinha, ser só eu, completa e feliz!»




