por Inês Biu Faro

«Ela, que é furacão suave em dias de Verão e olhar doce no Outono. Que é chuva quente em dias de Inverno e sorrisos na Primavera. Ela, que é gota no mar e tempestade em copo de água. Ela, que é canela sem cravo e açúcar refinado. Ela, que acredita no Amor até ao último fio dos seus longos cabelos. Que vai buscar força ao lugar mais recôndito do seu ser. Ela, que tem dentro de si luz, sonhos, vida e cor. Ela, que vê além da capa. Que acredita no bom antes de ver o mau. Ela, que perdoa em silêncio e se afasta. Que se cuida e não se arrasta. Ela, que ora se protege, ora se dá. Ela, que é simpatia, palhacinha e bonitinha. Ela, que tem sede de mais e de melhor. Ela, que quer voar…»
Lembras-te quando escreveste isto? Foi a propósito de uma das tuas fotografias mais bonitas, numa das muitas sessões fotográficas que fazias quase diariamente, maquilhada, com os óculos pretos ou os cor-de-rosa, de olhar fogoso e sorriso doce, com os melhores «outfits» e sempre do peito para cima, a valorizares a beleza do teu rosto e os seus detalhes. Eu sei que esta mulher não se perdeu de todo. Ainda está aí, mas ficou cansada de ser vista pelas máscaras. Começou a retirá-las e a mostrar-se mais autêntica do que nunca, usando a maquilhagem mais raramente, em momentos mais especiais, e, por isso, mais preocupada em descobrir os seus detalhes sem «as tintas» que poderiam tapá-los. Os sinais e as cicatrizes contam a tua história e quiseste mostrá-la. Assim como os ténis, que tiveram sempre prioridade face aos sapatos altos, as calças de ganga em vez de saias coloridas e as camisas largas em vez de blusas justas que te apertavam inteira.
Anda comigo. Vamos fazer uma viagem ao passado, porque, se desta vez achaste-te, houve vários momentos em que te perdeste e foi um pouco mais complicado reencontrares-te.
Começaste por perder a conta aos anos em que estiveste perdida de ti mesma — muitos, poucos, quase todos os da tua vida, será? Sei que houve fases em que tentaste encontrar-te, em que te desligaste destas ou daquelas pessoas, destas ou daquelas coisas, e tentavas ser tu, mas, ao mesmo tempo, quem eras tu? Quem sou eu?
E tem sido este o caminho que tens percorrido, entre cartas de amor a ti mesma, onde escreves, linha atrás de linha, que és a mulher mais incrível da tua vida, o teu grande amor – porque és mesmo! –, saídas de zonas de conforto para descobrires mais sobre o teu mundo e as tuas capacidades, venceres medos e sentires-te cada vez mais normal na tua pele. Numa normalidade que não é imposta por outrem ou pela sociedade, mas por ti, por te sentires bem em ser diferente, por te sentires bem em seres uma mistura de sossego e furacão, Inverno e Verão. Pense-se nos opostos mais comuns, és tu. Um misto de tudo isso que tens vindo, cada vez mais, a descobrir sobre ti e como é maravilhoso não estar nem num lado, nem no outro, nem sequer no meio, mas saltitar à tua vontade, perderes-te sem te sentires perdida.
Ainda assim, perdeste-te. Achavas a diferença má, estranha, incoerente. Achavas tudo isto de ti. Felizmente, estás em busca das tuas essências, uma vez que a única que não perdeste foi a do Amor. Diz-se que os perfumes são compostos por três acordes com quatro essências diferentes que, as doze em conjunto, farão o melhor dos perfumes, uma décima terceira essência inesquecível. Sei que não perdeste as outras onze, estão aqui, no fundo do frasquinho de perfume que és – (risos) a minha mãe sempre me disse que os melhores perfumes vêm em frascos pequenos, por eu ser baixinha.
Perdeste-te de ti, por quereres ser vista, por quereres fazer parte dos grupos, por quereres pertencer e contradizeres a tua altura. Quiseste ser grande por fora e perdeste-te do interior e de que «o essencial é invisível aos olhos». Os teus frasquinhos foram sendo preenchidos por algo que não eram essências, mas meras coisas, formas, momentos, pessoas, nada que te impactasse ou que te fizesse sentir preenchida; perdeste-te em «achismos», até teres batido com o pé: «eu preciso de me encontrar, eu quero ajuda para descobrir quem sou».
Ao longo dos teus anos, perdeste-te e construíste uma Inês irrequieta, que não tem sossego na própria pele. A Inês Mulher tem estado a quebrar a Inês Menina, para ir buscar as essências do fundo, as músicas, os cheiros, cores e sabores, os abraços, as pessoas, os momentos, o que é verdadeiro e realmente te faz crescer, ser melhor, ser mais. Seres tu!
Se já sei dizer quem és? Não, acredito cada vez mais que é um caminho de vida, que descobres aos poucos. E continuas a permitir-te perder-te, porque, às vezes, pode ser bom – como quando te perdeste nas ruas de Roma (risos). Quando te permites ser, fazer e acontecer, tudo o que te faz bem, encontras-te. E é então que cada um dos doze frasquinhos se enche um pouco mais com as mais belas essências que compõem o teu Ser.
Não sei bem qual é o cheiro do teu perfume. Sei que não é igual ao dele, nem ao dela, muito menos àquele! O teu perfume é único e ainda bem que não queres que haja fim nesta busca de essências. Quanto mais descobres, mais aprendes a gostar da caminhada, mais prazer tens em seres tu, fiel e coerente contigo mesma, e em descobrires o que está no fundo e vai subindo para fazer parte do teu acorde. No final, podem até ser mais do que doze. A mim e a ti, o que mais importa é tornares-te, para ti e para quem tu tocas no coração, Inês’quecível!




