Sónia Brandão

por Sónia Brandão

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Existiram momentos difíceis.

Momentos em que, por um ou outro motivo, não quiseste ver.

Ver-te.

Porque estavas demasiado perdida em pensamentos intrusivos, porque estavas demasiado escondida dentro da realidade que estavas a viver.

Foram precisos longos dias, anos, para que hoje estejas aqui.

Em frente a ti, com vontade de te veres de verdade.

Durante muito tempo ouviste a frase mágica de muitos que te rodeavam: «Esta não és Tu!» «Tu não és assim!» Na verdade, a única que poderia afirmar isso com a convicção com que muitos o disseram eras tu.

Porque tu, mais do que ninguém, tens de te conhecer.

É tão fácil debitar palavras que podem ou não dizer coisas importantes, quando, na realidade, tu eras a que menos te conhecias.

Tiveste pouco tempo para te conheceres.

Talvez porque aprendeste a viver na sombra daqueles que te acompanhavam. Talvez porque tinhas medo de quem eras naquela época…

Viveste escondida pela tua família enquanto ias crescendo, vivendo de acordo com as expectativas dos outros, sem quereres mais, porque tudo estava bem, mesmo que nunca te tenhas perguntado o que querias. A vida acontecia.

Quando começaste os primeiros namoricos, moldaste-te às pessoas com quem estiveste: a forma de vestir, as conversas, os gostos musicais, até o teu paladar mudava; deambulavas entre as vontades de quem amavas.

Com o passar dos anos, foste-te tornando mais alienada de ti.

Raramente tinhas vontades. Aquilo de que gostavas pouco importava, sendo que, na maioria das vezes, nem o sabias. Bastava que quem te acompanhasse gostasse, o resto estava bem.

A ironia de tudo é que sempre soubeste quem eras. Era nas palavras que te ias encontrando. Era nelas que te revelavas de verdade. Eram elas que, quando lidas repetidamente por ti, te mostravam o teu «eu» de verdade.

É por lá que te continuas a encontrar, nas palavras, mas hoje também o fazes na vida real, sem te sujeitares à visão que os outros têm de ti, e isso, minha cara, é renascer de dentro para fora: primeiro tu e, depois, todos os outros vão-te conhecendo, de verdade, como és, sem expectativas, mas cheia de sonhos.

Até às próximas palavras, onde nos iremos continuar a apresentar uma à outra, e libertar.

About the Author: Sónia Brandão
Sónia Brandão
Apaixonada por palavras, aprendeu, desde nova, a criar realidades paralelas na sua mente — onde tudo era possível. "Amor de Perdição" foi o primeiro livro que leu. Tinha 13 anos e foi a mãe que lho sugeriu para se ocupar. Desde então, nunca mais parou de ler. Durante alguns anos, no entanto, parou de escrever: sentiu que tinha deixado de fazer sentido. Mas o confinamento fê-la regressar à escrita com mais força e determinação. Este ano, surgiu a vontade de partilhar com os outros o que coloca no papel.

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