Sónia Brandão

por Sónia Brandão

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Olho para as páginas em branco e tento encontrar palavras.

Procuro, dentro de mim, palavras que possa fazer sentido colocar no papel.

Procuro palavras que consigam descrever o que me vai na alma.

Não as consigo encontrar…

A dor é tão forte que a minha mente se recusa a encontrar sentido em palavras soltas, escutadas ao longo das últimas horas.

Podia começar com o discurso pouco claro que me habita, mas sei que não fará qualquer sentido para quem o ler, nem mesmo para mim…

Poderia voltar atrás o relógio do tempo e encontrar-me a mim ainda uma página em branco e começar a escrever sobre o que queria para o futuro, que, mesmo assim, não conseguiria imaginar nada do que a realidade me trouxe.

Por mais que eu espere o mau e deseje o bom, em poucas ocasiões consegui criar a realidade que me aguardava; em muito poucos momentos, consegui imaginar algo tão mau como o que, por vezes, a vida me presenteia.

O inesperado nunca faz parte do que imaginamos.

O acordar para a realidade que não queremos ver, ou, por vezes, não queremos viver.

Porque não sabemos como nos sentir, como nos comportar, o que dizer, o que fazer.

Porque, na maioria das vezes, não importam as nossas palavras, os nossos atos — somente o estar ali, naquele lugar de desconforto permanente, é o quanto basta. Mas nós queremos mais. Queremos fazer o relógio do tempo seguir, avançar a alta velocidade, para que os maus momentos se transformem somente numa memória distante e não tão dolorosa.

Mas, por vezes, ver os que amamos em momentos de dor extrema também serve para nos mostrar o quanto somos bons no ato de nos colocarmos em segundo plano, em nos colocarmos simplesmente como reforço emocional de alguém.

Por mais duro que seja, ainda não tenho palavras que possam descrever o que me vai na alma.

O tempo vai-me dar as palavras.

O tempo vai fazer as peças encaixar no sítio certo, mas…

Até lá, o sentimento de impotência ainda vai permanecer.

Ainda me vai afundar na dor, na impotência, na falta de palavras, de gestos que possam fazer a diferença, mesmo sabendo que o mais importante é estar.

Eu queria fazer mais, mas não tenho esse poder.

Avançar ou atrasar o tempo é impossível.

Reescrever a realidade tão-pouco é possível.

Por agora, só me resta olhar para a página em branco e esperar para ver o que ela vai conter.

Esse é o mistério da vida.

O que se segue, porque o relógio avança ao seu ritmo e nada o pára.

As páginas em branco de hoje, amanhã, estarão cheias de palavras, que, mais tarde, irão definir a nossa história por aqui.

About the Author: Sónia Brandão
Sónia Brandão
Apaixonada por palavras, aprendeu, desde nova, a criar realidades paralelas na sua mente — onde tudo era possível. "Amor de Perdição" foi o primeiro livro que leu. Tinha 13 anos e foi a mãe que lho sugeriu para se ocupar. Desde então, nunca mais parou de ler. Durante alguns anos, no entanto, parou de escrever: sentiu que tinha deixado de fazer sentido. Mas o confinamento fê-la regressar à escrita com mais força e determinação. Este ano, surgiu a vontade de partilhar com os outros o que coloca no papel.

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