por Sofia Pereira

Atravessávamos a passadeira como quem atravessa o tempo: devagar, hesitantes, com a alma suspensa entre o que fomos e o que poderíamos ainda vir a ser. Os teus ténis castanhos — iguais aos meus — tocaram o alcatrão ao mesmo tempo que os meus pés encontravam o mesmo ritmo. Entre os atacadores, pequenas flores brancas despontavam como promessas tímidas. Simples, frágeis, mas vivas. Tal como nós.
Naqueles segundos suspensos, revi-te.
Não com os olhos, mas com o coração. Como se o meu peito tivesse memória própria, uma memória que nenhuma ausência conseguiu apagar. E ali estavas tu: inteiro, tão próximo e, ao mesmo tempo, tão distante, como se o tempo não nos tivesse roubado, como se a vida nos tivesse apenas deixado em pausa.
Recordo com nitidez o dia em que te pressenti antes mesmo de te conhecer. Um arrepio atravessou-me quando os nossos olhares se cruzaram pela primeira vez — como se o destino tivesse, nesse instante, feito uma vírgula no parágrafo das nossas vidas, preparando-se para reescrever tudo. Fingi que era só imaginação, que era apenas mais um encontro casual. Mas o meu corpo sabia. O meu coração sabia.
Tentei afastar essa certeza que me parecia insana. Tentei seguir caminhos paralelos, convencer-me de que não éramos capítulos do mesmo livro. Mas, como se ressoasse dentro de mim, uma certeza ficava: eras tu.
Eras tu, o olhar meigo que me devolvia a calma. O sorriso que sabia dizer mais do que as palavras. O abraço que ainda não tinha acontecido, mas já me envolvia.
Naquela passadeira, hoje, entre passos e silêncios, não foi preciso falar. As flores nos sapatos disseram tudo. Diziam que continuávamos a cuidar, mesmo à distância. Que havia delicadeza ainda dentro de nós. Que, apesar de tudo, resistíamos.
E, então, senti, com mais força do que nunca.
Senti que o teu regresso não era só um acaso. Que a vida nos tinha voltado a cruzar porque há histórias que não se apagam, apenas adormecem. Senti que ainda querias descobrir quem sou agora, e eu queria redescobrir-te também. Senti que o tempo não tinha levado o essencial: a ternura, a confiança, a fé de que, um dia, podíamos ser um para o outro esse lugar seguro. Senti que, mesmo sem promessas, queríamos estar.
Hoje, não sei o que seremos. Mas sei que senti tudo isto — e continuo a sentir. Sei que te (re)vi. E que, desta vez, não quero desviar o olhar.




