Sónia Brandão

por Sónia Brandão

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A dor da tua ausência é quase insuportável.

Quando me deixaste, sempre achei que voltarias.
Quando partiste, intempestivamente, pensei no teu regresso como algo inevitável.
Por longos meses, pensei que regressarias, porque eu fazia parte de ti.
Mas, com o passar do tempo, esse dia não chegou.
Desapareceste como se nunca tivesses existido.

Podia convencer-me facilmente de que foste somente um sonho, mesmo sentindo o teu cheiro em mim, mesmo sabendo como era o teu corpo, mesmo ouvindo a tua voz, vezes e vezes sem conta, na minha mente, porque desapareceste.

Quis, e acreditei que era uma fase.
Mas não foi.

Foi o momento da minha destruição.
Foi o momento em que eu me perdi de mim.
Foi o momento em que percebi o quanto eras importante na minha vida, no meu coração, na minha mente inquieta.

Depois de ti, fiquei parado.
Parado, perdido na dor que me consumia, dia após dia.
Não me engano. Deixei outras tentarem ocupar o teu lugar, mas ninguém preencheu o vazio.
Não quis que ninguém permanecesse.
Precisava de ti, e não te encontrei em ninguém que se seguiu.

Precisei de descer ao inferno para o reconhecer.
Precisei de desabar para o perceber.
Comecei por recordar os bons momentos, os momentos parvos, os momentos desvalorizados no passado, para depois poder enfrentar os momentos definidores, aqueles com que eu nunca quis lidar no passado. Aqueles que escondi dentro de mim.

Mas, por mais que volte ao passado, por mais que reconheça os teus erros e os meus, volto sempre aqui.
Sinto a tua falta.
Só quero regressar a ti.
Quero voltar a sentir o teu cheiro. Preciso de sentir os teus braços, ao meu redor, e saber que regressei a casa.

Preciso…
Preciso!
Preciso de te deixar lá no passado, onde pertences!
Preciso que deixes de entrar na minha mente, como se ainda tivesses direito a isso.
Preciso de te deixar sair de mim…

Quero voltar a ser eu.
Quero voltar a ser quem devo ser.
Quero voltar a ter memórias que não invadas.
Quero…

Continuo nas contradições da minha mente, do meu coração.
A batalha continua, sem que eu consiga fazê-la parar, dentro de mim.

Volto a ti.
Volto a nós.
E recomeço do ponto de partida.

O que preciso, o que quero, sem importar onde e quando o vou conseguir…
Deveria reconhecer o que se segue.
Devia conseguir continuar, porque…

Só eu importo!
Por mais que ainda te ame, não tenho forças para te colocar na equação, não tenho forças para pensar em ti.
Eu importo.
Hoje, eu importo!

Respiro fundo e volto a repetir tudo na minha mente, com a certeza de que este é somente mais um passo no processo de “Adeus” em que ainda me encontro.

Porque vou voltar a amar.
Porque vou voltar a amar, depois de ti…

About the Author: Sónia Brandão
Sónia Brandão
Apaixonada por palavras, aprendeu, desde nova, a criar realidades paralelas na sua mente — onde tudo era possível. "Amor de Perdição" foi o primeiro livro que leu. Tinha 13 anos e foi a mãe que lho sugeriu para se ocupar. Desde então, nunca mais parou de ler. Durante alguns anos, no entanto, parou de escrever: sentiu que tinha deixado de fazer sentido. Mas o confinamento fê-la regressar à escrita com mais força e determinação. Este ano, surgiu a vontade de partilhar com os outros o que coloca no papel.