por Estefânia Barroso

Sempre que chove uns dias seguidos, lembro-me das imortais palavras de Gabriel Garcia Márquez, no magistral “Cem anos de solidão”:
«Choveu durante quatro anos, onze meses e dois dias… (…) A atmosfera estava tão húmida que os peixes poderiam entrar pelas portas e sair pelas janelas, navegando no ar dos aposentos… Foi preciso abrir canais para escorrer a água e desimpedi-la de sapos e caracóis, para que pudesse secar o chão, tirar os tijolos dos pés das camas e andar outra vez de sapatos.»
Penso sempre que o mesmo está a acontecer em Portugal e que, mais cedo ou mais tarde, todos iremos criar verdete, tal a humidade que se sente no ar…
Pelo que acima ficou dito, penso que será claro que não gosto de chuva. Nem um pouco! Sempre ouvi dizer que as pessoas que nasceram nos meses frios gostam de chuva e frio. Logicamente, quem nasceu nos meses de verão gostará de calor e sol. E a verdade é que este conhecimento comum bate certo, se pensar em mim e na minha irmã. A minha irmã nasceu em outubro. É uma grande apreciadora das golas altas, do frio e dos cachecóis. Já eu, que sou a mulher de junho, sou uma apaixonada do chinelo, das alças e do calor a aquecer-me as costas enquanto caminho. Como tal, obviamente, só poderia odiar dias de chuva. Quem pode gostar daqueles dias sombrios, húmidos, desagradáveis? Quem poderá ficar bem-disposto quando acorda, coloca o nariz de fora e percebe que o dia está chuvoso? Dizem que há pessoas que gostam disso…tenho cá para mim que só poderão ser pessoas pouco confiáveis, com graves problemas por resolver! Abdicando das ironias, o certo é que eu prefiro os dias de sol e tenho tendência a esquecer as necessidades óbvias de repor recursos hídricos e, como tal, esquecer a necessidade extrema de existir chuva. Por minha vontade, poderia ser verão o ano inteiro, poderíamos ter temperaturas de 30 graus nos doze meses do ano e a chuva poderia dar o ar da sua graça duas a três vezes nos 365 dias que compõem um ano civil. Com certeza que viveria bem e feliz.
Mas a verdade é que estamos no inverno e não para de chover há dias. Como há sempre que olhar para o lado positivo das coisas, e numa tentativa de sobreviver a estes dias cinzentos que nunca mais acabam, optei por fazer uma lista de coisas que gosto de fazer em dias de chuva ou que se tornam agradáveis por, precisamente, serem realizadas à chuva.
Passemos, então, à lista:
Andar à chuva, porque fomos apanhados por uma trovoada, ou simplesmente porque sim, e, em seguida, chegar a casa e tomar um banho quente. Eu gosto!
Ouvir a chuva cair e bater nas janelas enquanto lanchamos umas belas torradas (se forem de lume, ainda melhor) e bebemos um chá ou um chocolate quente (maravilhoso). Ainda no domínio “aconchego caseiro”, quem não aprecia estar no quentinho da sua cama enquanto, lá fora, cai um dilúvio? E passar um domingo à tarde a “sofazar”, vegetando no sofá a ver um daqueles filmes lamechas, enquanto na rua está chuva e frio?
Ler, à lareira — sendo que, “no resto do mundo”, chove —, com os teus animais de estimação por companhia. Uma verdadeira terapia!
Ser conduzida, num dia de chuva, naquele ambiente quentinho e aconchegante do carro, enquanto se ouve uma boa música, também pode ser anotado nesta lista!
E as trovoadas de verão? Quem não saiu de propósito de casa, ao ver cair uma trovoada de verão, para poder sentir a chuva na pele?
Há que dizê-lo: haverá algo mais bonito do que ver numa paisagem, ainda algo cinzenta, um belo arco-íris? E a verdade é que sem a chuva (e o sol, claro) não teríamos direito a assistir a essa imagem tão poética.
Quem nunca deu um beijo à chuva porque tinha visto num filme e tinha achado extremamente romântico? Eu gostei!
Esta crónica foi escrita num dia de chuva. Penso que deveria juntar a esta lista «escrever, num local quente e aconchegante, enquanto lá fora se pensa que o melhor é voltar a pensar numa arca para nos salvar a todos».
Volto a dizer: sou uma mulher que precisa de sol, que adora a energia que ele lhe transmite. Sinto-me mais leve e animada em dias soalheiros e de calor. Mas a verdade é que também preciso da chuva, de quando em vez, e do encanto que ela pode ter. Há que dizê-lo sem medos: existem muitas situações que sabem bem, precisamente, porque está um dia de chuva. Acabei de elencar algumas delas.
Lembram-se de outras situações? Partilhem-nas aqui comigo. Ajudem-me a olhar para um dia de chuva tal como Fernando Pessoa, ou melhor, o seu heterónimo, Alberto Caeiro, o via:
«Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol. Ambos existem. Cada um é como é.»