por Inês Biu Faro

Quando aos 18 anos conheci verdadeiramente o amor, mantive a minha mentalidade romântica de que só se ama uma pessoa de cada vez, de que só temos um grande amor na vida e que temos tempo para amar muitos, um de cada vez.
O tempo foi passando. Eu fui amando e crescendo, conhecendo. E, mesmo mantendo a mentalidade romântica, aprendi que podemos amar mais de um ao mesmo tempo. Não tanto pelo cliché «se gostas de um segundo, então fica com ele, porque o primeiro não será assim tão importante», mas porque aprendi a guardar o primeiro, porque também ganhei vários grandes amores na minha vida ainda curta. Porque aprendi a amar com todo o coração, toda a dádiva, sempre inteira.
E guardei todos. Criei o meu Sótão e as suas mil e uma portas. Criei os baús de memórias, as caixas de ternura, ranhuras para o correio, os grilhões, as cartas, tudo o que me permite guardá-los e recordá-los para sempre. Revisitá-los quando preciso de voltar a aprender uma lição ou uma nova e algum deles me sirva de exemplo.
O tempo foi passando e descobri que nenhum amor se compara ao que se lhe antecedeu, que podemos amar igualmente de coração cheio, mas com ímpetos, certezas e sonhos completamente diferentes. Sem deixarem de ser emoções fortes, que causam os mais belos sorrisos e beijos, mas também as dores mais fortes.
Têm sido aqueles que menos espero que mais me têm marcado, mais me fazem escrever, suspirar e contar histórias. É desses mesmos que mais espero e pouco ou nada tenho. Porque essa parte ainda não aprendi. Ainda sonho muito e em grande. Ainda vou para caminhos que sei que não irão dar a lado algum, mundos criados apenas na minha mente, nas minhas nuvens e no meu Sótão.
Quis criar este Sótão de uma torre de um castelo, como algo leve e fantasioso. Para que assuntos tão pesados fossem levados de uma maneira menos escura, menos dolorosa. Talvez pela minha paixão pela Disney. Talvez por toda a minha credibilidade em mundos cor-de-rosa, contos de fadas e «felizes para sempre». Até talvez por me sentir uma princesa, independente, mas sempre com vontade e necessidade de ser salva, como nas histórias. Uma necessidade mais emocional do que física e é aqui que entra a psicoterapia e toda a ajuda que tenho tido.
Este Sótão tem sido a minha fuga, a minha salvação, a minha vitória sobre as dores. Aqui em cima, encerro todos os amores e o que veio com eles, as amizades perdidas, tudo aquilo que acho que não me sinto preparada para lidar, trabalhar e processar até encontrar a minha força. Então, na altura certa, as forças chegam e as lutas também. Acolho todos, mas, quando saem do meu mundo, quando perdem a oportunidade de manterem a porta aberta no Sótão, fecho-a — é para nunca mais.
O amor tem sido a maior lição e aprendizagem da minha vida. Sobretudo estando numa fase tão solteira, tão conturbada e em que aprendo todos os dias todos os meus estados.
Há dias em que páro no tempo, subo ao Sótão e espero que as memórias rebolem pelo chão até mim. Às vezes, para me lembrarem do que aprendi. Outras tantas para manter a minha crença de que vale a pena amar e lutar pelo amor recíproco. Noutras vezes, rebolam as memórias mais felizes, nem que para me afagarem a solidão e a carência, para me aconchegarem antes de adormecer e aterrar em sonhos confusos.
O tempo passa, e eu aprendo, eu conheço e reconheço que, se posso ter mais do que um grande amor na minha vida, então o primeiro de todos tenho de ser eu mesma. Cuidar-me, gostar-me, amar-me. Tornar-me, todos os dias, na mulher que quero ser sempre. Às vezes mais calma, às vezes mais furacão, mas sempre derretida, sempre empática, simpática, alegre, divertida, doce e, até, teimosinha.
O tempo passa e descubro que conquisto os corações de quem menos espero, pela empatia, pelo sorriso grande e pelo olhar quente. Pelo conforto das palavras e pela disponibilidade, por ter e querer ter tempo para ouvir e ser ouvida, para escutar. E, assim, continuo a semear e a colher amores. Não são amores apaixonados, mas não são menos dignos de ter um lugar na minha plateia. O Sótão acaba por estar mais preenchido pelos amores apaixonados, inflamados, dignos de histórias. Porque é sempre assim que os vivo, sejam eles com um Saltimbanco, um Arlequim, um Principezinho ou, até mesmo, um Trovador.
Vivo os amores apaixonados fogosamente, com desejo, luxúria e prazer. Com afeto, carinho, compreensão e sentimentos fortes. Aprendi sozinha que não podia ser menos que isso, que não podia ser menos que eu mesma. Não viver amores desta maneira seria maltratar-me, descuidar-me, desvalorizar-me. E, mais uma vez, teria de ser eu a reerguer-me, não por não ter ajudas, mas por ter de me olhar no espelho e enfrentar eu as minhas batalhas.
O amor é um pau de dois bicos, ou só de um: o tanto que tem em beleza tem em escuridão e, tal como a lenda, cabe a cada um de nós decidir que lobo queremos alimentar. Ainda assim, foi preciso estar solteira há tanto tempo para aprender tantas lições com os vários amores do meu Sótão.
Um dia hei de contar todas as minhas histórias de amor ao mundo. Porque amar nem sempre foi bom ou fez bem. Porque amar também tem finais felizes. Há histórias que merecem ser contadas depois de vividas. Um dia, escrevo um livro e espero que se deliciem.



