por Sónia Brandão

Existem sentimentos que me dominam, mesmo sem saber de onde aparecem. Este é um desses momentos.
Não os sei definir. São uma mistura de tudo e de nada, dor, saudade, revolta, injustiça, um mix perfeito de sentimentos não tão bons.
Mas, dentro de mim, existe todo um reboliço de vida que parece parada.
E quero tudo. Quero o que procuro, mas sei que, lá no fundo, talvez ainda não esteja totalmente a abdicar de pessoas — situações que, por agora, ainda me dão o conforto que tanto bem me fez em outros tempos.
Mas sei que me sinto sufocada. Pela vida — mais pelas pessoas. Pela rotina constante que emite visões cada vez mais diferentes de quem sou.
No agora, as coisas estão muito diferentes do que eu pretendia. Por escolha minha, em parte, mas talvez pelas pessoas que me rodeiam e que se limitam a atuar para todos, mesmo que as personagens sejam diferentes consoante o espectador.
Talvez este seja o momento de aproveitar o brotar das sementes na terra, e partir para novas paragens, onde as verdades sejam verdades e onde os atores mantenham as personagens com qualquer que seja o espectador.
Durante o tempo em que fui somente uma espectadora, foi fácil porque não percebia o quanto as personagens eram diferentes. Mas, hoje, já percebo.
Percebo o sorriso que não o chega as ser. Percebo a maldade do comentário que nunca deveria ter sido feito. Percebo a hipocrisia que não pode ser disfarçada com palavras doces.
Talvez seja o momento. Talvez seja o momento de avançar por novos caminhos.
Talvez.
Mas e o tanto que lutei para estar aqui? Deixo tudo para trás e começo do zero?
Talvez…
Sento-me e observo o mar de serras que me rodeia. Vejo o brotar das flores, do amarelo, do lilás que molda esta paisagem tão bem conhecida. Este é o maior dos prazeres que tenho nos dias que correm.
Não por falta de motivação em relação ao que vivo, mas mais por me encontrar neste limbo, entre o que espero e o que vou encontrando.
Vou deixando os curtos e sombrios dias de inverno para trás, e começo a olhar para o sol e para as flores que a primavera me traz. Mesmo sem perceber a totalidade da mudança que me é imposta.
Não pela mudança de estação. Essa é fácil de perceber — estamos a caminhar para o calor que envolve o corpo e que, por vezes, cura a alma. Mas, mais do que isso, pelos caminhos que tenho que escolher, pelas palavras que terei que proferir, por mim.
Também eu preciso de deixar a personagem desaparecer e voltar a ser eu. Voltar a sorrir. Voltar a deixar as palavras amargas onde devem estar.
Os dias longos vão alterar parte da visão que tenho hoje. Porque mudar também é positivo. E nem sempre perdermo-nos, no dia a dia, se pode chamar de vida.
Vou acompanhar as estação da vida e deixar o sol beijar-me com o carinho de um pai que abençoa as escolhas.
O caminho muda, mas eu não me transformo numa sombra que passa pelas ruas que percorro.




