Daniela Rodrigues

por Daniela Rodrigues

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Dizem que a Primavera chega devagar. Mas há Primaveras que começam dentro de nós, sem aviso.

O sol parece brilhar mais e já se notam as primeiras florzinhas a despontar. Há cor – mesmo que ainda não se distinga qual vai predominar ali. Há outros perfumes no ar e o chilrear alegre dos passarinhos. Na verdade, quando a Primavera começa, dentro de nós, tudo parece melhor, mais quente, mais alegre, mais colorido, mais feliz…

Até o corpo se sente mais quente e os sorrisos mais soltos. A minha Primavera trouxe o brilho no olhar e a esperança no futuro, desenhou novos sonhos e transformou o coração – abrindo-o tal qual um botão de rosa, com aquele perfume doce e pétalas suaves ao toque.

Mas, por vezes, a Primavera vem acompanhada de incertezas, tempestades e geadas, sombras e tristezas, deceções e medos. O sol continua a brilhar. mas parece que, por instantes, já não é suficiente, já não aquece.

As tempestades, tal como a Primavera, começaram cá dentro e mudaram o rumo do que viria a seguir. Algumas chuvas vieram em forma de lágrimas e os ventos transformaram-se em soluços perdidos. As flores e as cores continuaram lá, mas desvaneceram, perderam o brilho, deixaram de ser o foco. O chilrear alegre dos passarinhos ainda se ouve ao longe. Os perfumes perderam um pouco da sua doçura e os dias trouxeram as sombras pautadas pelo medo. Até os sonhos perderam a base, o sentido e a cor. Mas o coração, esse, continuou na sua teimosia e não quis secar. Deixou que o botão de rosa, que se abrira antes, murchasse. Mas manteve os seus galhos a crescer e vê-se que, se a Primavera quiser voltar, ele está pronto para florir de novo, mais forte.

«A Natureza sabe o que faz.» Por vezes, para que a Primavera possa florescer de verdade, precisamos de aprender a dar-lhe espaço e deixá-la seguir o seu caminho. Precisamos de sobreviver às tempestades e aprender a dançar na chuva. Precisamos de aprender a esperar pelos dias certos para colher e colocar aquela flor no cabelo – tal qual as princesas.

Por vezes, é preciso deixar passar a tormenta e recomeçar quando o vento se tornar uma brisa suave e a chuva decidir dar tréguas.

A Primavera não terminou na tempestade que decidiu vir visitar-nos. Continua, aqui, mais calma e ponderada, à espera do seu momento para surgir de novo. Não se foi embora. Só decidiu vir brindar-me, com todas as suas coisas boas, mais tarde. Talvez.

E eu vou continuar no mesmo sítio, à espera dela, sabendo que não preciso de ter pressa porque ela não tem data marcada. Ela chega no silêncio, nos pequenos sinais e na calma da vida que flui sem quase se dar por isso.

A minha Primavera voltará a florir quando quiser e, até lá, mesmo sem ela, já não é inverno.

About the Author: Daniela Rodrigues
Daniela Rodrigues
Nascida e criada no coração do Douro, entre o rio, as vinhas e as paisagens de tirar o fôlego, Daniela é apaixonada pelas palavras (e pelos violinos). Escreve desde que se lembra e transforma emoções em palavras, dando vida a histórias que aquecem o coração e envolvem quem a lê, num abraço terno, doce e, um tanto, encantado. Traz em si a imensidão dos sonhos; acredita no amor e nos finais felizes; carrega consigo a essência da saudade e todos os desejos que a fazem viver.

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