Madalena Matias

por Madalena Matias

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A Maria ia sempre com as outras. Era algo que lhe estava no sangue, ou melhor na ponta da língua. A cada convite que recebia sentia um bicho feroz, dentro dela, a gritar palavras que não raramente a estrangulavam por dentro: «Sim, pode ser.» Pode ser, porque algo dentro dela a forçava. Mas, então, e quando, na realidade, não podia ser e tudo o que menos queria era dizer sim? Porque dizer «não» suava sempre a uma nova batalha que não queria travar, a palavras desferidas de forma cortante? Será que, no fundo, até queria? Estranho como um pequeno órgão podia tomar decisões que iam contra todo o resto do seu corpo, do seu ser.

Maria Vai Com As Outras ia com as outras e nem sabia porquê. Acreditava que talvez não tivesse mais nenhum sítio para ir. Acreditava que era vergonha ir para aqueles sítios que, em segredo, cuidavam do seu verdadeiro eu. Para que conste, isto não é sobre lugares geográficos.

Fugia até de terapia para tentar entender quem era, porque, no fundo, sabia que algo de muito errado não estava certo. Usava sempre a mesma saída: a mais fácil, a que evitava tráfego. Atalhos ao caminho longo das explicações. Mas porque não queres sair? Mas porque não na sexta? Mas porque não queres estar com a Leia? Tu gostas tanto dela. Anda, vai ser divertido. E Maria ia. Maria partiu, e nem sabia porquê. Numa geração para a qual seria escárnio usar palavras sagradas, é ousado afirmar «Maria levantou-se e partiu». Mas, ai, Maria, nem bebeste o chá que acabaste de preparar, levantaste-te e partiste. Socializar num jantar, com pessoas que nem gostas assim tanto, num sítio que nem tem boa música, com comida pior do que a tinhas em casa, com a Leia, de que não gostas nem um pouco, nem tanto ou quanto. Talvez a frase nunca tencionasse usar o verbo partir, significando mudar de lugar.

A cada vez que decidia ir com os outros, às custas da sua vontade, partia mesmo partes de si. Talvez só restasse pó de tanto caco.

Maria não sabia se estava presa, dentro de si mesma, ou se dentro de tantas outras vidas, sem poder entrar na sua.

Tinha medo que a máscara fosse ficando tão colada, que fingir e decidir em prol dos outros fosse tão mais acessível, que já nem soubesse quem era. Mas, mesmo depois de anos sem saber dizer «não» em voz alta, sabia o que não queria. Estava cravado dentro dela, mas não o conseguia verbalizar. Como assim? Como assim custar tanto dizer «não quero»? Como, assim, as vontades de outros serem sempre mais importantes do que as suas? Como, assim, viver bem com «da próxima vez, vou me sentir melhor» de cada vez que voltava a casa para o seu chá frio?

A Maria, a quem se deu esta bela alcunha, a do século 19, a que depreciativamente carregava a fama de insana, deixou a máscara colar. Era levada a passear pelo rio, pelas mãos das suas damas de companhia. O que ninguém sabia era que ela precisava que a levassem pela mão para esquecer que um filho lhe tinha morrido. Temia que, se fosse sozinha passear, não soubesse para que serviam as margens do rio. Então, ia com as outras, porque tinha medo de caminhar sozinha. No fim, é sempre o medo que nos move, ou, aliás, que nos paralisa.

Não vamos sozinhas porque temos medo de que outros nos vejam a caminhar junto do rio e chorarmos mais do que toda a água ali contida! Não vamos sozinhas porque a folia, às vezes, disfarça a imensidão que cá vai dentro! Na verdade, com os outros, chegamos sempre tão mais rápido, não é, Maria? Mas chegamos onde? Um sorriso tapado de lágrimas vai ser sempre o reflexo da verdadeira insanidade.

Maria, vai contigo!

About the Author: Madalena Matias
Madalena Matias
Cresceu na zona oeste, empurrada por ondas de pensamentos que só acalmam no papel. Escreveu, na maior parte da vida, para si, acreditando que a magia da escrita residia mais na introspecção do que na popularidade. No mundo da escrita guia-se pela máxima «you write better whether you’re falling in love or falling apart» porque escrever é isto mesmo: abraçar a alegria ou a tristeza, ou todos os infinitos sentimentos que andam ali no meio.