por Albertina Silva

As palavras têm um potencial tão grande, que chega a ser incompreendido. E, por outro lado, às vezes, extra valorizado.
Escrevemos a palavra “palavras” e logo a direcionamos ao escritor, ao músico, ao professor; e nada é mais inocente de pensar, pois quase todos falamos.
Falar, verbalizar. É dessa palavra que me sinto esfomeada por esventrar. E estamos todos neste lugar.
A palavra que sai da boca interna, que é encaminhada ao ouvido, sempre atingindo o coração.
A palavra que esconde a verdade, e a mente, destreinada e ardilosa, prefere acreditar mais nessa infame do que no gesto que a acompanha.
Quanta falta de razão. E dizemos tê-la muito…
A palavra: a que se mistura com gritos, ou com ternura.
Escolhe bem…
A palavra sussurrada ao ouvido, prometida entre intervalos de prazer carnal e a intenção de lá voltar.
A palavra gritada em profunda dor, chorada em profunda angustia, desesperada em profundo sofrimento.
A palavra aberta porque a boca ri, verdadeira porque os olhos brilham, real porque o corpo obedece.
A palavra pensada antes de chegar ao destino, planeada a cada segundo para tantas perguntas. Os olhos que não podem enfrentar os outros olhos, as mãos que ficam inquietas, o som que se torna agudo…
A palavra que a voz desmascara, que o corpo reclama ou agradece, que une ou que separa, que vê e que esconde.
Há mais, não há?
Questiono:
Para onde se atira o saco cheio de palavras vazias?
Para que buraco negro vão as palavras que ficam por dizer?
Para quê palavras longas e difíceis, se tudo o que pretendo alcançar é curto e doce, como o caminho até aos teus lábios?
Para quê palavras fúteis, se tudo o que me faz feliz é tocar-te de soslaio e fingir que não me apercebi, enquanto te toco, por acidente, uma vez mais?
Para quê gritares, se nenhuma palavra vou ouvir, mas o teu grito jamais esquecerei?
Para quê mentires, se nenhuma palavra vou honrar mais por muito tempo e, em meu peito, jamais esquecerei?
Para quê fingires, se cada palavra dita te sai vazia, e meu respeito por ti se desvanecerá?
Para quê falares mais comigo, se meu coração já não te ouve mais?
O que ganhaste?
O que ganhei?
Para quê me esconderes a palavra curta que te sai da boca? Essa – como diamante por polir -, que me inflige no peito uma seta incendiada, que me perturba o movimento da espinha, que desperta minha fonte, jorrando em mim, por mim, o elixir da vida por apenas mais uma palavra tua, e toda a verdade de teu corpo com ela…
Para quê falar, se não podemos dizer?
Para quê ouvir, se não podemos escutar?
Para quê existir, se não podemos amar?
Para quê o silêncio, se a palavra não existe mais?
Para quê decorar, se nada mais é eterno?
Se tudo passa e nada passa, e as palavras que ficam por dizer jamais alcançam tamanha distância…
Para quê o esforço de demonstrar?
Para quê a tentativa de alterar um tom, corrigir um acento, ajudar numa vírgula, permanecer na reticência e nunca, nunca, escrever um ponto final, antes de tudo dito?
Para quê tanta palavra gasta em perguntas?
Perguntas que levam a mais perguntas.
Palavras que levam a mais palavras.
Então, que as palavras sejam realmente Palavras.
Que saibamos que o mundo existe, e, mesmo assim, a nossa língua escolhida permanece.
Que o meu corpo dance comigo a cada palavra, e que em cada gesto uma verdade resida, mesmo que falha minha a precisar de uma revisão; pois que deixo, pois que tu és a lição que vou aprender devagar, que vou distinguir pela noite até ao raiar do dia, que vou sorrir quando me arrelias e sorrir mais ainda quando, palavra abençoada, me gostasses de ver como alguém que quer ficar…
A palavra cantada à volta da fogueira.
A palavra que se distingue, entre muitas outras, e obriga ao silêncio, mesmo que doa.
A palavra: Tu.
A palavra: Nós.
A palavra que começa num grande Eu e termina num grande céu Estrelado…
A palavra é Deus também. Muitas vezes não na escrita dela, mas na energia que dela emana.
Lembra-te disso, ó medo. Que isso já não me engana.
E, de palavra em palavra, todo o mundo cabe neste texto, pois nós somos os criadores das palavras.
Mas nunca os criadores dos nossos gestos mais genuínos e espontâneos.
E isso, só por si, diz muita coisa.
Como nota, acresce-me dizer que, de te tudo o que já foi escrito, ainda está alguma coisa por se revelar.
Vivendo-se — uma dança tango entre esse esboço e o silêncio de deixar vir algo mais além do nosso habituar…
E para ti, que me possas ler: não escrevo sobre mim – sou insignificante.
Não escrevo sobre ti – não me autorizaste.
Se escreveram estas palavras para olhos que sabem ler, mentes que sabem pensar por si, corações que não têm mais espaço para a ilusão dos tempos.
Pois, sobre nós… não sei nada sobre mim.