Inês Biu Faro

por Inês Biu Faro

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Escrever sobre mim mesma não deveria ser assim, tão difícil. Afinal, é o que mais faço desde que comecei a escrever mais afincadamente, há cerca de 15 anos. Muito provavelmente, foi por volta dessa altura que comecei a olhar melhor para mim mesma. Muito embora ainda tivesse – e tenha! – muito por aprender, acredito que houve ali um ponto de viragem.

Ano após ano, tenho vindo a descobrir novas emoções, sentimentos e coisas em mim que não sabia que tinha ou, melhor, sabia, mas anulei-as em prol dos outros. Inconscientemente, fui crescendo e anulando-me, anulando aquilo de que gosto e quero, começando a desconhecer-me.

Não fui a mais rebelde das adolescentes, mas, claro, passei pela fase do armário e do estalo na cara e, mesmo assim, continuei a anular-me e a «varrer para baixo do tapete» o que era de mim, o que era meu, para agradar aos outros.

Estando a fazer terapia há quase dois anos, tem-me sido um pouco mais fácil descobrir o que é meu e aquilo que não é; tem-me sido mais fácil descobrir a mulher bonita, amável, resiliente e amorosa que sei que sou. Quantas e quantas pessoas mo disseram sempre? Lembro-me, em especial, de uma querida amiga que mo diz há mais de dez anos e que, actualmente, é a pessoa mais feliz por mim, pelas minhas descobertas e por, finalmente, ser para mim aquilo que sou para os outros. Ainda não consigo fazer uma lista do que gosto e não gosto, do que quero e não quero, mas não é por isso que não consigo identificar. Aliás, uma das coisas de que mais gosto nesta nova autodescoberta da Inês é deixar-me de listas e listinhas — simplesmente fazer, acontecer, viver! Sair de zonas de conforto, perceber se estou desconfortável ou se posso alargar a zona de conforto, aprender novas coisas sobre mim e sobre aquilo a que me proponho.

E não, não é tudo feito de cores bonitas e coisas fofinhas. Crescer, mudar, evoluir e fazer um caminho de autodescoberta também é doloroso. Da dor que nos faz crescer, é certo, mas dói! Dói mesmo! Quantas e quantas horas já eu chorei por me dar conta do mal que já fiz a mim mesma, precisamente por me anular? Quantas vezes já eu me apercebi de que só gostava, comia ou fazia certas coisas por causa dos outros, porque os outros faziam? Quanto desconforto proporcionei a mim mesma e deixei de lado tudo o que é de mim por causa dos outros…

É difícil, é muito difícil, mas não quero desesperançar ninguém. Mesmo que doa sair da carapaça, é das melhores sensações de sempre. Nunca pensei gostar tanto de estar sozinha como quando fui a Roma. Nunca pensei gostar tanto de levar com vento frio na cara como quando estou no adro da igreja à espera do meu pai ou quando vou a pé até ao Cais do Sodré.

Neste percurso de autodescoberta, o mais bonito tem sido a percepção de que não há grandes nem pequenos passos. Há passos! Só isso. Não há uma medição! E, mais do que isto, há uma perda de medo – da minha parte – em descobrir mais. Nem sempre há vontade, os medos e as inseguranças não nos deixam num estalar de dedos, mas é por não os ouvir e não lhes dar espaço que descubro mais e mais de mim, que descubro o que me faz bem e mal, que vejo que sair das muitas zonas de conforto não é assim tão mau ou sequer amedronta. Tomo para comigo mesma actos de coragem que me fazem crescer cada vez mais e sinto as minhas asas a crescerem, a mudarem a sua penugem e a vontade de descobrir novos ninhos, novos céus, novas paragens que não conhecia, ir ao sabor do vento… e os actos de coragem tornam-se novos hábitos que me fazem bem, que se tornam parte de mim. A lufada de ar fresco que chega quando sinto mais um bocado da concha a cair, a leveza que sinto no peito quando me apercebo de que consigo ouvir e sentir sem absorver as emoções dos outros, isto é, respeitar as minhas sem as entregar e não ficar com as deles.

Este bonito caminho também me tem mostrado que priorizar-me não implica tornar-me egoísta ou desatenta. É isso mesmo: dar-me prioridade, quando antes não dava; equilibrar-me com o que e quem me rodeia; deixar de me anular e compreender o que ainda faço, inconscientemente, e que posso trazer para o consciente para cuidar e limpar os vincos dolorosos. Aproveitar o que há de bom, em vez de o desvalorizar. Largar a dor e aquilo que me faz mal e, assim, contrariar tudo o que aprendi ao longo da vida, dando espaço a tudo o que é bom.

Cresci em dois ambientes completamente diferentes. Num, de analfabetismo emocional total e machismo, onde os homens não se expressam e as mulheres os servem, ainda que sem discriminação por níveis de escolaridade e emprego, muito embora sentisse uma pressão constante para ser perfeita, não errar, não desiludir e seguir todas as aspirações menos as minhas. Noutro, cresci em total amor e liberdade para ser e fazer aquilo de que gosto e que sou, onde todos podemos expressar o que sentimos, o que pensamos e respeitamos todas as opiniões e emoções, onde há espaço para errar, cair e voltar a levantar-me, onde «ser perfeita» é a menor das preocupações e cada passo é celebrado. Foi assim, logo desde cedo e desde que comecei a ter consciência de tudo o que me rodeia, que criei as minhas máscaras e vivi nestes bailes – sobre os quais já escrevi aqui – e que passei a respeitar, mas também a querer sair. Porque quero, porque não me identifico, porque percebi que não gosto de usar máscaras. Gosto de ser eu. E quem sou eu? Estou a descobrir!

Um caminho de autodescoberta é das melhores coisas que tenho podido fazer por mim! Com ou sem terapia, o importante é querer olhar para dentro, para o que penso, gosto, olho, quero. É, sobretudo, querer fazer as pazes comigo.

Vivi muitos anos a cobrir-me. Descobrir-me tem sido maravilhoso!

About the Author: Inês Biu Faro
Inês Biu Faro
Ainda não conhecia o abecedário quando começou a "escrever". Enchia cadernos com linhas "escritas" à sua maneira, com todos os seus contos de fadas e sonhos. Ao longo da escolaridade, aprimorou o gosto pela escrita e desde que se lembra que escreve diários. Não é fácil ser várias mulheres numa única e só os diários a compreendem, por falar consigo mesma. Escreveu, escreve e escreverá sempre com o coração, com emoção, de uma mulher para tantas outras, de um coração para tantos outros. Tem um manuscrito por editar. Será desta que sairá do forno? Esperemos que sim!

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  1. Maria Reis 18 Fevereiro 2025 at 13:29

    Um texto inspirador, muito bom !

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