por Estefânia Barroso

Sempre me considerei uma pessoa saudável. O corpo nunca apresentou muito mais do que umas mazelas comuns: umas constipações, umas rinites, umas alergias e muitas dores de cabeça, sem grande explicação. Mas tudo fácil de gerir, nada que me assustasse valentemente. No parâmetro «Saúde física», nunca tive muito com que me preocupar — é um facto. É claro que o avançar na idade vai trazendo mais umas pequenas maleitas que há que vigiar, uma tensão que sobe um pouco, uma tiroide que não quer funcionar, mas tudo se vai gerindo sem grandes stresses.
E a nível da saúde emocional? No item «Saúde emocional» também me considerei sempre (ou quase sempre) uma fortaleza. Apesar de ser uma pessoa dada a explosões algo frequentes — ou, eventualmente, por isso mesmo —, sempre achei que era uma pessoa saudável a nível mental, equilibrada emocionalmente, gerindo os desafios do dia a dia e os problemas com alguma leveza e apoiando-me sempre na máxima de Scarlett O’Hara, de E Tudo o Vento Levou: «After all, tomorrow is another day» («Afinal, amanhã é outro dia»). Tristezas, desânimos e sentimentos depressivos também nunca foram grandes companheiros para mim. Pelo contrário, sempre segui de perto as ideias dos Monty Python que, mesmo em momentos dramáticos, assobiavam e cantavam «Always look on the bright side of life!» («Olha sempre para o lado bom da vida!»).
Contudo, momentos houve no meu passado em que não me senti assim. Uma relação tóxica que vivi (tenho ideia de que todos, mais cedo ou mais tarde, passamos por uma relação sentimental menos boa), a que se juntaram outros problemas de difícil resolução (desemprego e poucas perspetivas de futuro), levaram-me a mergulhar num desânimo perigoso. Passava grande parte do dia numa tristeza sem fim, muitas vezes a chorar horas a fio, com uma perigosa vontade de estar isolada e sozinha. Sentia-me a afundar num buraco escuro e sem fim e o pior é que não sentia forças, nem vontade, para sair de lá.
Assumo que eu, que era uma pessoa, por norma, bem-disposta e de bem com a vida, não apreciava muito esse farrapo humano em que me estava a tornar. Talvez por isso não tivesse grande vontade de sair de casa. Apesar do abatimento, não sentia que estava numa depressão. Ainda hoje penso que não foi o caso. Mas estava num estado de tristeza profunda, do qual não estava a conseguir sair, e nem por isso procurava ajuda.
E esse é um dos grandes problemas da sociedade portuguesa. É-nos muito difícil admitir que estamos mentalmente doentes. Preocupamo-nos com a nossa saúde física. Grande parte de nós cuida-se, pratica algum tipo de desporto para preservar o corpo, vai ao médico com alguma regularidade e, se tiver uma dor mais aguda, não hesita em recorrer a médicos e hospitais. Mas… e se a dor não for física, mas mental? Também irá procurar ajuda com a mesma celeridade? Não, não irá. Pelo menos, grande parte de nós não o irá fazer (ainda que se veja uma ligeira evolução nestes últimos anos). A grande maioria irá procurar aquela que é a saída que considero mais fácil: ansiolíticos, antidepressivos, comprimidos que ajudem a aniquilar a dor que o nosso espírito sente.
Não entendam, depois de ler esta última frase, que sou contra o uso destes químicos. Não sou. Apenas acho que devem ser tomados com alguma parcimónia, por quem, efetivamente, não consegue curar-se sem o recurso a eles. Para os outros, apenas recomendo algo que todos deveríamos fazer: terapia!
Voltando ao meu caso pessoal, e depois de ouvir várias pessoas próximas de mim a referirem que «talvez» necessitasse de ajuda, recorri, efetivamente, à terapia. E posso informar-vos de que, de facto, foi uma boa opção. Foi com a minha psicóloga que falei (durante horas a fio), pensei, analisei as situações e os problemas sob vários aspetos. Foi com ela que chorei, ainda mais. Foi com ela que desabafei a minha zanga para com a vida. E foi com ela que percebi que estava, de facto, triste, mas que tinha razões para tal.
Eventualmente, terá sido essa a maior descoberta nesses primeiros tempos de terapia. Eu estava triste, não estava deprimida, mas tinha direito a estar assim. E só ter essa certeza, não pensar que tinha de, obrigatoriamente, estar a sorrir e de bem com a vida, quando ela (a vida) me tinha tratado tão mal, fez-me aceitar que, naquele momento, estava triste, mas que iria superar, cedo ou tarde, essa melancolia. Aceitei o abatimento com a certeza de que, um dia, passaria. E foi a partir daí que comecei a subir, lentamente, as escadas que me levaram àquele eu positivo e bem-disposto que eu sempre tinha sido.
É urgente recuperar a ideia de que ninguém é feliz todos os dias, todas as horas. Todos têm os seus momentos de tristeza, infelicidade, de se sentirem miseráveis. E isso é NORMAL! Como se ouve algumas vezes por aí: «It’s ok not to be ok» («Está tudo bem em não estar bem»).
Pergunto: se não passássemos por tempos maus e sombrios, como iríamos perceber quando estávamos a vivenciar tempos felizes e de luz?