por Inês Biu Faro

Limites? Limites?? Li-mi-tes?!! Que é isso? Eu não sei o que é isso, não sei o que são limites. Eu cresci num convento! (Ok, uma pequena pausa. O meu alter ego «Clarinha» entrou em cena. Num outro dia, falar-vos-ei sobre ela.) O que é isso de limites?
Ora bem, «limites» são aquelas linhas que eu deveria conhecer desde sempre e que só nos últimos anos é que me dei conta do que são, pelo menos, os meus.
Ao longo da vida, fui-me habituando a fazer tudo por todos e por todas as situações. Habituei-me, e mal – vejo-o agora –, a «varrer para debaixo do tapete» todas as minhas vontades, quereres, decisões e emoções, para agradar, para ser vista, para que notassem que eu existia. E, com isto, também habituei mal os outros. Habituei-os a poderem pedir tudo a qualquer hora, que eu iria largar tudo o que estava a fazer para os atender. Fosse quem fosse, deixei todos aqueles que me rodeiam muito mal habituados. E quem diz «pedir algo», também diz «esticar-se para com os meus limites sem eu dar conta, senão quando já é tarde demais».
E, afinal, quando é que reparei nestas linhas e comecei a traçá-las e a respeitá-las? Tornei-me uma «pessoa difícil, impossível, chata, egoísta» e todos os outros adjectivos que quem não entende que há limites costuma atribuir quando alguém os põe. Traçar as linhas de limite é menos complicado do que parece — pelo menos, assim tem sido para mim. Já respeitá-las? É outro bocado do percurso.
Não tenho propriamente uma noção cronológica, mas acredito que tenha começado a impor os meus limites quando comecei a respeitar as minhas pausas, as minhas horas de almoço e, sobretudo, a minha organização de tarefas diárias. Assim como quando comecei as aulas do mestrado e precisei de me organizar ainda melhor. Mais do que isso, precisei de me respeitar, de respeitar o meu cansaço, o meu foco – e a falta dele – e pensar bem quanto tempo demoraria cada tarefa para gerir o emprego, sair a horas para as aulas, os trabalhos, a vida pessoal, a vida artística, tudo!
E, não menos importante, quando comecei a impor limites quanto ao meu espaço pessoal, dentro e fora de casa. Quando pedi respeito pelo meu quarto e pelas minhas coisas em casa — sobretudo, quando estou.
Quando comecei a impor os meus limites, foi tudo mudando. Para mim, para muito melhor. Para os outros? Não sei, não tenho de lidar com as suas frustrações. Aprendi a respeitar o meu desconforto e a sair de situações que me deixavam nesse estado, assim como a afastar-me de pessoas que também só se lembravam de mim quando precisavam de uma «solucionadora» ou de quem fizesse tudo sem questionar.
A par com o «não» sem culpas, também veio a ausência de justificação. Eu nem a mim mesma justifico as decisões que tomo – só às vezes, vá, tenho de ser honesta! – quanto mais aos outros! Partindo da ideia de que não preciso de justificar à entidade patronal o que faço nas minhas folgas, também não o faço com ninguém no resto da minha vida – ou, pelo menos, é essa lição que tenho estado a tentar aprender e, acreditem, é possível, estou muito melhor.
A minha psicóloga ensinou-me um jogo muito fácil e lembra-mo muitas vezes: desenhámos círculos no chão e, conforme eu me sentia desconfortável com a sua presença perto de mim, mudava de círculo, até cair num deles muito pequeno e muito mais desconfortável do que qualquer outro ou mudar. E, então, aprendi que não posso estar sempre a mudar de sítio ou a diminuir-me para caber nas expectativas dos outros ou nos espaços que me dão. Precisamente por serem «dos outros», não tenho culpa que esperassem algo de mim e não tiveram. O que aprendi, também, é que se desenho um círculo de 360º, não posso diminuí-lo para que tu caibas, não! É o meu espaço. São as minhas vontades, escolhas e decisões. Sou eu que dito as minhas próprias regras, e a isso também chamamos de «limites».
Tenho aprendido a não fazer por ti, se para mim for mau. Se me deixar mal, não vou mexer-me. Por mais criativa que seja, não me adianta pensar em ‘n’ soluções para resolver ou fazer um favor, se, logo de início, é algo que não vai deixar-me bem comigo mesma.
E, ainda, a dar prioridade a tudo o que é relativo a mim. Posso até ter um dia inteiro livre; se eu quiser descansar, em vez de andar a fazer recados, é uma escolha minha. Eu não quero sentir-me obrigada a estar em sítios onde não quero estar, ou a ver pessoas com as quais não empatizo – honestamente, já me chega ter todo esse tipo de situações no trabalho.
Impor limites, dizer «não», não justificar as minhas escolhas e ações, tem sido uma grande aprendizagem, simplesmente porque eu desconhecia tudo isto, porque, ao longo da minha educação, eu é que tinha de respeitar os limites dos outros e não podia ter os meus. Estranho, não é? Fazer pelos outros e não fazer por mim.
Então, mas sou a Cinderella? Abdicava de mim constantemente e sem me dar conta. Imaginem, até, pensar «será que gosto mesmo de comer isto, ou gosto porque X também gosta e quero muito ser amiga dela/e?» Ou até duvidar das minhas capacidades: «será que sou mesmo boa nisto ou é só porque não sou capaz de fazer mais nada?». É que, ao não colocar limites, estava a passar aos outros a mensagem de «estou sempre disponível, eu não importo, tu é que importas» – tudo errado nisto! Não estou sempre disponível e eu importo! Eu gosto de passar horas sem fazer nada, a olhar para as paredes e a organizar as ideias, ir para um jardim sentir o vento e não pensar em horas, perder-me entre frases e escrever crónicas sem fim.
Eu gosto de escrever e não ser interrompida. Eu gosto de ler e sentir-me de tal maneira focada que mergulho nas histórias. Gosto de comer sem culpas. Gosto de experimentar novos restaurantes. Gosto de entender o que me irrita, de perceber de onde vem esse sentimento mau e como posso eliminá-lo. Gosto de aprender mais sobre mim, doa mais ou doa menos. Estou a fazer por me consertar e ser cada vez melhor para mim.
E se, neste caminho da imposição de limites e de ser melhor para mim, acabar por afastar pessoas, não me importo. Também pode doer, é certo, mas já não me importo. É porque, na verdade, essas pessoas já não faziam nada perto de mim e só o faziam por interesse.
Se é para ser notada, que seja pela mulher incrível e inteligente que sou — não por fazer tudo por todos e em todas as situações.




