por Daniela Rodrigues

Voltei para casa, mas não lhes disse.
Talvez nem devesse chamar-lhe de casa, porque não é a mesma de sempre – aquela onde cresci –, mas é a que será daqui para a frente, por tempo indeterminado.
Não fui à casa deles. Na verdade, nem sabem que estou aqui na terra. Decidi aproveitar o dia para passar nos recantos que fizeram parte da minha infância, aqueles sítios que conhecia tão bem e onde ficaram tantas recordações. Houve momentos em que pensei que já não reconheceria o caminho — afinal, passaram-se tantos anos desde a última vez. Mas, na verdade, foi como se tivesse sido ontem, como se tivesse percorrido aquele caminho em cada dia que estive fora.
Passaram mais de 10 anos.
Olho para o que está à minha frente, naquele sítio que posso jurar que era o mesmo onde eu vinha quando era pequena, onde havia uma casa em ruínas, cujas pedras eu adorava riscar; onde apanhei figos secos com a avó, do lado da pequena fonte; onde descobri umas flores selvagens brancas, pequenininhas e, do alto da minha inocência infantil, disse que, quando casasse, queria que o meu bouquet tivesse aquelas mesmas florzinhas.
Não há nada. Nada!
Já não existe aquela ruína onde me escondia e brincava e criava histórias sozinha. Já não existe aquela fonte nem a figueira ao seu lado. Já não existe aquele pedaço de terra descampado, liso, onde encontrava as pequenas flores que adorava. Já não existem as vinhas que, poucas vezes, percorri. Está tudo diferente. Como pude ser tão ingénua ao pensar que estaria igual?
Aquele sítio já não era meu. Não fazia sequer sentido que uma pequena parte dele tivesse sido conservada. Os novos proprietários não têm as mesmas memórias que eu tenho e nunca tiveram as mesmas histórias para contar. Nunca vão saber o quanto eu amava a vinha velha e os esconderijos ou cada caminho de terra que se inventava ali para chegar a qualquer lado.
Os novos donos nunca saberão que, ali, mais abaixo, atravessei outro terreno para ir molhar os pés ao rio Douro pela primeira vez.
Os novos donos nunca vão saber que, um dia, em criança, vim com os meus pais fazer os trabalhos que eram necessários (ou melhor, os meus pais foram trabalhar e eu fui brincar, como era habitual) e, quando era hora de irmos embora, encontrámos fogo pelo caminho e passámos pela estrada de terra batida entre as chamas; que ainda não havia ali bombeiros e que eu temi perder aquele pedaço de terra que chamava de meu.
Os novos proprietários já o são há mais de duas décadas.
Eu é que nunca mais tinha voltado aqui.
Não me traziam cá.
Hoje entendo que talvez soubessem que me ia magoar, chegar aqui e não ver nada do que conheci.
Desculpa, avó.
Não me deixaram manter este sítio teu (e meu) tal como era quando o conheci, tal como era antes de ires.
Ninguém me ouviu quando eu disse o que me mostraste.
Eu era apenas uma criança. Não tinha voz nem razão.
Perdemos as duas.
Talvez mais eu, porque não te tenho aqui.
Refiz o caminho de volta ao centro da aldeia. Era hora de passar por casa dos pais.
A caminho, encontrei na esplanada do café aquele que foi um amor do passado.
Lembro-me que, cada vez que o via, as minhas pernas tremiam e o sorriso aparecia.
Não enganava ninguém!
Mas enganei-me com ele.
Nunca teve coragem ou ousadia.
Prendeu-me nas meias palavras e nas promessas que não o eram.
Lembro-me do dia que lhe disse «amo-te».
Foi apenas uma vez.
E vem, de rompante, a resposta mais fria de todos os tempos: «amanhã falamos».
Um amanhã que nunca existiu.
Hoje sei porquê.
Lembro-me de ele ter dito, da boca para fora, algo sobre «daqui a 10 anos» e, o mais engraçado da vida, é que a vida levou esse exato tempo a desbloquear, chamemos-lhe assim.
Como se houvesse volta a dar pelo caminho e o que foi feito para magoar pudesse reiniciar.
Não mudou.
Ou melhor, mudei eu.
Passo pela esplanada e não há nada ali: nem as pernas bambas, nem o sorriso, nem o coração a saltitar como se quisesse sair do peito.
Estou curada de ti.
Tenho essa certeza desde que o teu prazo terminou e, agora mesmo, pude comprová-la.
Toco à campainha.
A mãe vem à varanda, como é habitual.
Vê-me, faz uma festa e desce para abrir a porta.
Abraça-me e eu sei que ali tudo é frio e fingimento.
Coloco a minha máscara feliz.
Passei o resto da tarde com ela e com o pai.
Jantei com eles.
Perguntei por várias pessoas.
Disse-lhes que estava só de passagem, por causa do trabalho, e tinha de seguir viagem, mas não podia deixar de fazer a paragem na casa deles.
Saí.
Entrei no carro e fui até à minha nova casa.
Esta era mesmo minha.
Não havia fingimento nem aparências aqui.
Voltei à terra onde cresci.
Comprei uma casa aqui.
É hora de fazer as pazes com este sítio, abraçar as mudanças e recomeçar.
Mas devagarinho.
Não sei se vou ficar ou quanto tempo vou ser capaz de ficar aqui.
Mas sei que, a partir de hoje, posso sempre voltar.
Mesmo vendo diferente tudo o que perdi.
Mesmo que o tempo tenha levado tudo o que conheci.
Mesmo que a vida me tenha tirado as pessoas importantes daqui.
Agora, tenho uma casa minha.
Aquela que nunca souberam que tinha sido eu a comprar.
Desculpa, avó, por ter perdido a tua quinta.
Mas consegui ficar com a tua casa: aquele meu cantinho feliz das memórias boas.
Prometo mantê-la o mais fiel ao que me recordo, possível (incluindo a lareira aberta da cozinha, aquela parede especial, a clarabóia e o chão de madeira da sala de estar).
Um dia, haverá uma família grande aqui reunida à volta da mesa e crianças a brincar nos corredores, na varanda e no quintal, como era todos os anos no verão, quando ainda eras viva.
Mesmo que demore uma eternidade!
Prometo, por ti, por mim.




