por Sónia Brandão

Durante meses, mantive-me quieta, tentando perceber o que estava errado, onde me tinha separado de «mim».
Não houve um momento «uau», onde, de repente, tudo fez sentido.
Não…
Foi uma sucessão de momentos de angústia, de dúvidas vindas do nada, de tristeza sem motivo aparente, de lágrimas derramadas sem motivo.
Foi o choque de existirem momentos em que não sabia quem era.
Foi um emaranhado de emoções negadas, uma avalanche de pequenos momentos que me conduziram até aquele momento.
Embarquei numa relação nova uns meses antes. Começou por ser «boa para mim», mas, em muito pouco tempo, tornou-se a minha maior fonte de angústia inexplicável.
Talvez porque, nesse entretanto, eu me tenha escondido tão dentro de mim que perdi o caminho para me encontrar.
Deixei o tempo correr porque não sabia o que mais podia fazer. Sentia que estava presa por amarras invisíveis, que me obrigavam a continuar onde estava.
Houve um dia, depois de algum tempo, em que percebi que não me conseguia ver. Houve um dia em que me humilhei perante mim, um dia em que tive vergonha de mim, um dia em que odiei olhar ao espelho, um dia em que lágrimas correram pela minha face sem controlo. Houve um dia…
Nesse dia chorei com mais dor do que em qualquer outro; chorei sozinha, numa viagem dolorosa a mim.
Tentei parar o momento, porque sentia que o erro era meu.
Mas, mesmo tendo a perceção de que o erro era meu, parei.
Parei por mim. Deixei todos lá fora.
E foi nesse dia repleto de dor que veio o meu primeiro «não».
Já não podia continuar a viver de acordo com a vontade de alguém. Tinha de voltar a ouvir a minha voz. Tinha de voltar a falar comigo. Precisava de parar de concordar com o tudo e com o nada dos que me rodeavam.
Esse primeiro «não» foi dito a mim.
Foi o mais importante, porque aí pararam as expectativas dos outros e apareceram as minhas, em muito tempo.
Muitos outros «nãos» se seguiram.
Foram dados a todos aqueles que estimulavam e ajudavam a criar alguém que era um reflexo deles, mas muito diferente de mim.
Nem sempre aceitar as vontades dos outros e ignorar as nossas nos faz bem. Na maioria das vezes, transforma-nos em seres sem vontade, em seres que desistiram de viver.
Depois daquele dia, muitas lágrimas correram livremente, mas, depois de elas se esgotarem, apareceram os sorrisos tímidos no início.
Os sorrisos radiosos apareceram com o brilhar do sol.
Porque ele só brilha quando temos tempo de o ver, quando aceitamos os seus beijos de bom dia, quando nos despedimos dele com um sorriso no rosto, dia após dia.
Por mais difícil que tenha sido dizer «não», aquela realidade, por toda a dor que lhe foi inerente, hoje posso afirmar que dizer «não» pode ser a melhor forma de voltar a existir.
Foi isso que fiz.
Voltei a existir e deixei que a vida continuasse, apreciando todas as pequenas mudanças que apareceram em mim desde aí.
Nunca mais voltei a chorar por ser quem sou, por me olhar ao espelho. Nunca mais tive vergonha de mim.
Tenho orgulho de ser quem sou, porque, depois do «não», disse muitas vezes «sim» a mim!




