por Inês Biu Faro

Não! Não!! NÃO!!!
Libertador, certo? Sobretudo se for para os outros e não para mim mesma! Aprendi o valor de uma única palavra quando comecei a estabelecer os meus limites, quando comecei a pôr-me em primeiro lugar e a deixar claro o que me deixa desconfortável.
Cresci com a pressão de querer agradar a todos; que, se fizesse tudo bem feito, era vista, ou perfeita, ou, ainda, tentando ser perfeita, reparavam que eu existia. Ser uma menina quieta e que se entretinha muito bem sozinha com os seus brinquedos e a sua imaginação — por melhor que seja atualmente para a minha criatividade —, pelos vistos, não abonava a meu favor, ou talvez sim: afinal, nesse sentido, dava pouco trabalho a quem cuidava de mim.
Nunca gostei de conflitos e, para os evitar, aceitava tudo e todos. Até começar a sentir-me cada vez mais apertada na minha própria pele. Não me reconhecia, não sabia do que gostava, ou por que é que gostava de tal coisa ou tal comida, brinquedo, roupa, gesto. Não sabia por que ia onde ia, por que fazia o que fazia. Sentia-me uma ovelha do rebanho. Até perceber que sou uma ovelha cor-de-rosa, diferente de todas as outras, e é maravilhoso ser diferente, é maravilhoso dizer «NÃO!»
Tem sido durante esta aprendizagem de imposição de limites que comecei, também, a sentir a frescura da negação, de uma negação para o meu bem. Se eu ficar desconfortável com o «sim», o «não» sairá sempre primeiro e, aqui, é mais um limite que traço — às vezes, nem dou conta de que os traço, mas cá dentro fica tudo registado.
Já me magoei muitas vezes por dizer tantos «sins» aos outros em vez de me ouvir a mim, em vez de ouvir a minha intuição, as vozinhas que cá dentro me diziam «isso não vai correr bem para ti, só para os outros». Colecionei mágoas que me ensinaram tanto quanto o uso da negação e que, por isso mesmo, não quero repetir. Imaginem: ao longo da minha licenciatura em Linguística, aprendi dezenas de maneiras de aplicar a negação e a palavra «não»; a teoria sabia eu muito bem, a prática demorou a chegar, mas, quando chegou… foi como a brisa fresca numa tarde quente de Verão ou uma lareira quentinha numa noite de Inverno.
No enunciado deste desafio foi-nos proposto que partilhássemos o «Não» mais libertador e, muito honestamente, não consigo lembrar-me de nenhum em particular. O sentimento de culpa, que foi caindo, foi muito mais libertador do que propriamente a palavra. Conseguir negar algo, ou negar-me a alguém sem me sentir mal porque magoei, ou desiludi o outro, é incrível! Eu fiz bem a mim, eu fiz algo para o meu bem, para o meu cuidado, para a minha satisfação.
Dizer que não a alguém que amo, a algo que não quero fazer, comer ou que me deixe mal comigo mesma — tudo o que me tira do meu centro, do meu eixo — agora é digno de negação. Cuido-me cada vez mais e melhor — é nisso que preciso e tenho de me concentrar.
Não implica gostar menos de ti, porque não te fiz um favor que eu não queria fazer. Não gosto menos de ovos, porque hoje não os quis comer. Não gosto menos de escrever, porque não tenho inspiração ou vontade há três dias. O maior pressuposto da negação para o autocuidado é negar-me a fazer o que não me deixa bem — estou a ser redundante, eu sei, mas é preciso afirmar de todas as maneiras possíveis que o «Não» me dá mais liberdade do que a própria palavra «liberdade».
Mesmo que contradiga as minhas emoções e, de vez em quando, ainda pense duas vezes, a culpa, essa, já não a sinto. Ainda assim, sou uma mulher com empatia de sobra e claro que essa mesma empatia vai tentar sempre levar a melhor sobre a minha razão. E, aí, sou eu quem diz «não» a mim mesma: «não vais, porque vais magoar-te»; «não vais aguentar mais, vais parar e vais respirar»; entre tantas outras situações do dia a dia que, por mais pequenas que me pareçam, vão-se somando e criando um saldo muito positivo no meu autocuidado e na minha maturidade.
Esta liberdade, ao início, pode trazer dissabores, como ser vista como «difícil», «chata», «egoísta», «intransigente», entre outros adjetivos que possam qualificar quem quer ser livre e o outro não reconhece isso. Passei por isto, sim, mas fui ignorando. O facto de ter ajuda profissional — para descobrir as ferramentas para usar as minhas forças emocional e racional — facilitou muito mais o meu processo de «ignora, continua o teu progresso de autocuidado». Não só consegui manter a minha posição firme, como aprendi a ver de fora — literalmente! Cheguei a afastar-me uns metros para assistir aos comportamentos de determinadas pessoas e poder pensar «o problema não sou eu!» e, a partir daqui, os «nãos» tornaram-se cada vez mais fáceis de dizer.
Um «não», dito no momento certo, para «quem» e para o «quê» certos, é impagável. Em vez de colecionar mais mágoas, coleciono negações que me fazem crescer, que me ajudam a traçar limites e prioridades. Por isso, aproveitem bem os meus «sins», porque os «nãos» estão mesmo ao virar da esquina e já os sei dizer muito bem!




