Estefânia Barroso

por Estefânia Barroso

Partilhar:

4 de outubro de 2025. Dia do Animal. Estava eu, sozinha com Carlota, num consultório veterinário, a despedir-me de 20 anos de companheirismo e amor incondicional. Já me tinham explicado o procedimento: primeiro seria sedada, acalmando-a, deixando-a numa estranha paz e, depois, seria então administrada a dose que lhe iria fazer parar o coração. Tudo sem sofrimento, disse-me o veterinário…

Foi assim que tomei contacto, pela primeira vez, com o mundo da eutanásia animal. Foi nesse dia que, tornando-me o mais próxima possível da velhinha Carlota, fazendo-me presente naquele terrível momento, tomei contacto com a morte medicamente assistida de um animal. Mal sabia eu, à época, que, uns meses depois, voltaria a passar pelo mesmo. Estaria no mesmo consultório, junto de outra gata, também sem condições de continuar a viver. E, mais uma vez, decidiria por ela pôr fim a um sofrimento físico demasiado duro de suportar e, acima de tudo, irreversível. Aquilo que fiz foi, apenas, encurtar as horas de sofrimento, procurando que partissem em paz, tanto quanto possível.

A certeza, com a Carlota, foi difícil de obter. Sim, ela estava demente, não conseguia estar parada, rodando sobre si própria até que caía, desamparada, nalgum canto de cansaço. Mas, sim, ela continuava a comer – muito pouco, mas comia. Todos os dias, a mesma pergunta: «Haverá esperança? Poderemos ter melhorias?» Isto até ao dia em que a encontrei, já sem força nas patas traseiras para se levantar, as patas em contínuo movimento, o olhar perdido como quem já não estava cá. E aí, sim, a certeza dada pelo veterinário de que ela estava a sofrer.

Tomar a decisão de eutanasiar um animal é muito mais difícil do que alguma vez pensei. O caminho que percorri com a Carlota passou, primeiro, pela esperança de que houvesse algo milagroso que a fizesse voltar a ser a velhinha que conhecíamos. Depois, aos poucos, fui assistindo a sinais que não podia ignorar: uma saída da gata para a rua (ela, que nunca saía, que quase estava cega, como quem pressentia que a morte estava perto e queria morrer sozinha); um dia em que não conseguia de todo comer, ainda que tentasse (como se tivesse esquecido de como se fazia); um miar de dor, vindo do nada, enquanto, pensávamos nós, ela dormia, descansada. Até ao dia em que a degradação última chega tão depressa que não te restam dúvidas. O fim está próximo e, se não ajudares, ela irá morrer em sofrimento, eventualmente sozinha…

É claro que até ao fim pensei – e tenho de admitir, muito depois dele: «E, se ela falasse, seria essa a sua decisão?» E tenho de vos dizer que esta é a pergunta que nos fica na mente bem para lá do fim deles… Pergunta para a qual nunca teremos resposta, creio.

Nunca pensei voltar a passar por esta decisão tão pouco tempo depois. Mas a verdade é que tive de o fazer. E posso dizer-vos que, desta vez, a decisão foi tomada em segundos depois do veterinário me dizer que não havia possibilidade de ser operada, que o fim dela, assinado por mim, ou pelo destino, não demoraria muito a chegar. Não sei se a decisão veio de uma maior consciência da dor dos animais ou se, de alguma forma, normalizei este processo que é o de aligeirar a dor e facilitar a passagem àqueles que tanto nos deram… A verdade é que não hesitei na decisão.

Essa é a experiência que tenho com a eutanásia. É dura. É uma morte que, queiramos ou não, é decidida por nós. Mas… e nos humanos? Aí, a decisão é do próprio! Há uma voz que pede para morrer. Uma voz lúcida que pede para acabar com um sofrimento físico e psicológico que é demasiado duro de suportar e, por isso, querem pôr-lhe fim. Teremos nós direito de lhes retirar esse direito? Surgem-me estas questões sempre que ouço falar em casos como o de Noélia Castillo, cuja morte medicamente assistida aconteceu no passado dia 26 de março. A decisão foi tomada por ela, claro. Foi-lhe reconhecido, pela lei, o seu direito a ter uma morte medicamente assistida, tendo em conta o sofrimento atroz – físico e psicológico – em que se encontrava. Ainda assim, teve de esperar 601 dias para o cumprimento da sua vontade e para dar um fim a esse sofrimento (porque o pai apresentou sucessivos recursos, procurando impedir o procedimento).

Falo ainda do último caso de que tive conhecimento – Ricardo Fernandes, que se despediu deste mundo, no dia 24 de abril, na Suíça (país onde a eutanásia também já foi legalizada). Pelo que sei, iniciou o processo em 2010. Dizia Ricardo, no podcast «Animal que Ri»: «Não podem querer que esteja cá só por estar. Os dias pertencem a cada um e cabe a cada um dar-lhes sentido.»

Ricardo sofreu um acidente. Ficou tetraplégico, com 95% de invalidez. Usava, para se caracterizar, a imagem de um pássaro que era livre e que, neste momento, só mexia a cabeça… Penso que deixava bem claro o seu estar e sofrimento.

Ricardo foi um defensor, ao longo dos anos, do direito à eutanásia. Dizia, e subscrevo as suas palavras, que o povo português, de um modo geral, não tem coragem de tomar as grandes decisões. Temos um Estado que obriga as pessoas a viver e sobreviver, mas que depois não lhes dá condições nenhumas de sobrevivência… Que humanidade existe nisso? Teremos nós o direito de não aceitar a eutanásia?

A eutanásia animal tem uma diferença essencial em relação à eutanásia humana. Se na primeira se reconhece um fim inevitável, na segunda não deixamos de aceitar um fim escolhido. Mas a verdade é que, em ambas, se procura colocar fim a um sofrimento que se tornou insuportável – e talvez seja aí, nesse ponto comum, que a discussão realmente começa, e não onde tantas vezes insistimos em terminá-la.

No fundo, aquilo que nos custa não é a morte. É o peso da decisão. É o lugar desconfortável onde o amor se cruza com a responsabilidade, onde cuidar também pode significar deixar partir.

No dia em que me despedi da Carlota, não pensei em leis, nem em debates, nem em ideologias. Pensei apenas em não a deixar sofrer. E talvez seja essa a pergunta mais difícil – e mais honesta – que podemos fazer, seja para um animal ou para um ser humano: estamos a prolongar a vida… ou o sofrimento?

About the Author: Estefânia Barroso
Estefânia Barroso
Nascida em terras francesas (Chambéry) em 1976, rumou a caminho de Portugal ainda na infância. Embora sonhasse ser veterinária, cedo percebeu que era no mundo das letras que o seu futuro se encontrava. Licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas, variante de Estudos Portugueses, e iniciou a sua vida profissional como professora de Português. Mais tarde, após terminar Mestrado em Educação Especial, tornou-se professora de Educação Especial. Leitora ávida e autora dos livros “Contos com gente lá dentro” e “Contos com bichos lá dentro”, tem mantido o blogue “Steff’s World – a Soma dos Dias”, onde escreve crónicas e contos. Para além disso, escreve para jornais como o P3 do Público e alguns jornais locais.

Deixa um comentário:

Também podes gostar de ler: