Sónia Brandão

por Sónia Brandão

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Quando a idade nos dá o tempo para fazer balanços, para rever percursos, não só os nossos, mas daqueles que nasceram de nós. É aqui que me encontro, perdida entre pensamentos, nas linhas da vida formadas pelas gerações que de mim nasceram. Posso parecer velha por fora, posso já não ter a energia que tinha em outros anos, mas tenho ainda a visão que sempre me acompanhou, a astúcia que me fez viver até hoje.

Comemoro mais um aniversário. Talvez porque já não sou uma criança, tenho a certeza que a minha vida não terá muitos mais. Mas sei que a minha memória, a minha herança, vai continuar a fazer parte da vida destas que me rodeiam hoje. Nasci em tempos longínquos. Daqui a não muito tempo, terei um século de vida.

Nasci naquilo que para muitos seria uma espécie de berço de ouro. Tive criadas ao longo da minha infância, vivi confortavelmente protegida durante alguns anos, mas, como a vida tem o poder de tudo mudar, um simples acidente, normal hoje, tornou-se fatal naquela época. Era a única filha de uma família de cinco irmãos. Cresci protegida por uma mãe leoa, pode-se assim dizer. Ela era a parte quase esquecida da família, uma filha sem pai, que aprendeu desde cedo a proteger-se da maldade do mundo no longínquo século XIX, e talvez por isso sempre me protegeu dentro do que era possível.

Mesmo assim, desde cedo senti a discriminação de nascer mulher. Os meus irmãos estudaram, aprenderam a ler e a escrever; eu nunca tive esse direito. Por ser mulher, naqueles anos as mulheres aprendiam as lides domésticas, coisa que sempre odiei. Aprendiam a costurar, a bordar, a ser recatadas. Talvez pela minha rebeldia, eu aprendi muito mais a lidar com os animais, com a terra.

Mas, quando a minha mãe faleceu prematuramente, eu passei a ser a «mulher da casa». Deixei as brincadeiras e transformei-me naquilo que era esperado na época: tratar dos homens da casa, cozinhar, limpar, enfim, tornar-me uma criada, sem o ser, porque nestes anos já não tínhamos criadas, a vida já não era tão confortável. Fi-lo durante anos.

Vi os meus irmãos partirem para outros destinos. Correrem atrás de uma vida melhor. Poderia ter-me tornado uma pessoa amarga por ser deixada para trás, mas não o fiz, porque nunca fui esquecida. Continuei a viver na ilusão que a minha mente sempre me permitiu.

Casei tardiamente, mas, como o destino tem sempre caminhos que não compreendemos, casei com um homem dez anos mais velho e experiente nas relações entre adultos. Apesar da idade, tinha 28 anos, a inocência ainda me era muito próxima. Talvez por ter crescido tão depressa. Mas o destino, como já falei, trouxe-me um homem compreensivo, inteligente, intelectualmente superior a muitos de nós na época. Eu sempre fui analfabeta para as letras, mas tinha a certeza de que a geração que me ia seguir não o seria, porque o homem que tinha ao meu lado não o iria permitir, tal como eu.

Criámos uma família cheia de apêndices, porque eu tinha o dom de trazer todos para dentro de casa, de alimentar os que não tinham, e por atos que todos se lembram de mim. Tive três filhos: um homem e duas mulheres. As meninas cresceram e tornaram-se mulheres cheias de vida. Nem sempre conseguiram o que desejavam, mas criei duas mulheres cheias de garra e sem nunca conhecerem o verdadeiro significado da palavra desistir. Empurraram a vida. Viveram a vida sem que os fardos do dia a dia as fizessem andar em círculos.

Elas casaram, tiveram filhos. Mas a minha herança genética só produziu duas meninas. Cada uma delas teve uma filha e alguns filhos. Curiosamente, nenhuma delas, filhas e netas, herdou as minhas características físicas, mas o caráter todas o levaram.

Agora, chega a terceira geração que ainda aprende a gatinhar, e pouco ou nada irão conhecer de mim. Todas têm a certeza da liberdade das escolhas que podem fazer. Vivem de acordo com o que são, sem as prisões que me limitaram. Mas, acima de tudo, todas sabem distinguir o bem e o mal, o certo e o errado, mesmo que, por vezes, tenham decisões que vão em contramão com o que penso.

As minhas vivências também me limitam, com a chegada do novo, com as mudanças gritantes que estes longos anos me mostraram. Mas sei, hoje, que todas elas têm o seu dinheiro, a sua independência financeira. Todas têm a educação pela qual sempre lutei para terem. Todas sabem o básico da vida, aquilo que mais tarde lhes vai dar a força para recordar como eu faço hoje. Todas vão ter oportunidade de se olharem e de olharem o futuro que se encontra ainda por descobrir.

Este é o meu legado: deixar ao mundo mulheres livres, em pensamento e em vida. Todas sabem quem sou, todas sabem a minha história e todas a vão recordar com a certeza de que a vivi da forma que vivi para, hoje, elas poderem estar nos lugares que estão. A respeitar a herança que lhes deixei.

Nota da autora: Este relato é da minha avó, uma mulher que nos ensinou a todos a bondade, a dar a mão a quem precisa. Por vezes, a pensar mais nos outros do que nela. Apesar de todas as fases menos boas da sua vida, nunca se tornou uma mulher amarga. Tinha sempre um sorriso no rosto e um brilho bondoso nos belos olhos azuis. Apesar de já ter partido, hoje continuam a falar-me dela com sorriso e saudade no rosto e a elogiar a bondade que sempre teve para com o outro.. Todos sabiam que, em sua casa, havia um prato de comida para quem não tinha, e uma palavra bondosa.

About the Author: Sónia Brandão
Sónia Brandão
Apaixonada por palavras, aprendeu, desde nova, a criar realidades paralelas na sua mente — onde tudo era possível. "Amor de Perdição" foi o primeiro livro que leu. Tinha 13 anos e foi a mãe que lho sugeriu para se ocupar. Desde então, nunca mais parou de ler. Durante alguns anos, no entanto, parou de escrever: sentiu que tinha deixado de fazer sentido. Mas o confinamento fê-la regressar à escrita com mais força e determinação. Este ano, surgiu a vontade de partilhar com os outros o que coloca no papel.

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