por Inês Biu Faro

Na grande maioria das vezes, não és positiva, incomodas, revolves todo o sistema nervoso, chegando a dar náuseas e a volta ao estômago. Noutras raras vezes, não és bonita, mas também não és má. Ajudas a aumentar e a suportar o entusiasmo. Eu mesma já te confundi muitas vezes com entusiasmo, quando esperamos muito por algo — ou alguém — que nos faz bem, que queremos muito, com que tanto sonhámos.
Já fiquei viciada em ti e correu tão mal… É que, quando estás em excesso e não és controlada, dão-se os burnouts e as adições ao cortisol — que foi o meu caso — e não és nada, nada, nada fácil de lidar. Ou, quando és crónica e a todo o momento estás a bombar numa mente que já é recheada de dúvidas, tu amplias essas mesmas dúvidas.
Querida ansiedade, se tivesses outro trabalho, o que gostarias de fazer? Gostarias de ser mais bondosa com os seres vivos? «Sim, os nossos amigos de quatro patinhas também te têm.» Gostarias de não ser regulada, até mesmo com químicos? Já alguém te ouviu como ouvem as pessoas? Por que é que apareces? Por que é que permaneces? Por que é que nos fazes tão mal? É que, para mim, tu trazes dores de cabeça, inquietação, desconcentração, tristeza, confusão, medo, angústia. Parece que vejo pior. Não cheiro nada a não ser o teu perfume intenso de «quem manda agora sou eu» e perco-me dentro de mim mesma — não sei o que digo, muito menos o que faço.
A nossa relação nunca foi a melhor, tanto que cheguei àquele extremo há dois anos. Giravas na minha mente como aquele bonequinho laranja que te representa tão bem. Giravas tanto, tanto, tanto, que me mandaste abaixo e tive mesmo de parar para me restabelecer. E não foi bom, não foi nada bom! Não soube controlar-te, dominar-te ou, pelo menos, ser mais forte do que tu. Deste cabo da minha memória. Todas as outras emoções se desequilibraram e ficaram à flor da pele. Reagia a todos os estímulos e nem sempre da melhor maneira. E não, a culpa não foi só tua. Deixei-me levar por tantos fatores externos que não soube gerir os internos, logo, pus o quartel-general nas tuas mãos e geriste conforme o que eu te dava para fazeres. Felizmente, já estava a ser acompanhada e continuo a ser. Aprendi truques e técnicas para te controlar, para te amansar e eu ser mais importante do que tu, permitir-te apareceres, perceber de onde vens e mandar-te embora. Já não te dou o controlo e, quando acho que vais tomá-lo, respiro fundo, volto ao início, até que te vais embora.
Dentro de todas estas coisas más que provocas — e que até nos fazes confundir com o entusiasmo —, quero acreditar que há algo de bom em ti. Isto é que, quando apareces, sejas um sinal de aviso de perigo ou desconforto, um sinal de alerta. Nem que seja para dizeres «olha, estás com demónios a mais nesta mente. Vamos quebrá-los?» Sou sempre otimista e quero mesmo acreditar que há algo de bom em ti. Talvez um dia acredite.
Sabes, tu não és fácil com ninguém, não és apreciada por ninguém que eu conheça e, mesmo não trazendo desgraças, não trazes propriamente coisas boas.
Espero que nunca faças morada permanente comigo. Não quero tratar-te com químicos. Quero-te ou fora de mim, ou equilibrada com tudo o resto que aqui está dentro. E, quando digo «equilibrada», é mesmo «diminuída»! Não podes voltar a reinar em mim. Não deixarei.
Coragem para ti, para lidares com quem, como eu, faz de tudo para te vencer.



