Maria Reis

por Maria Reis

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Há lugares que, ao longo da sua existência, serão sempre testemunhos. Lugares que obrigam a que quem entra, pelas suas portas, sinta a presença de outras vidas, compreenda a evolução ao longo dos tempos, recorde episódios noticiados e vividos por aqueles que aí sentiram o aconchego de um lar e aí sofreram ou foram felizes. Podemos sentir que, no seu seio, estão guardados muitos dos sentires de quem aí habitou, as suas virtudes ou imperfeições como o amor e o desamor; a solidariedade e o egoísmo; a prudência e a leviandade; a avareza e a generosidade…

Assim eu sinto sempre que entro em casa da avó, a casa a que foi dado o nome de «Vila Homera».

Hoje, olho a casa e vejo nela a imponência do passado, mas também o desgaste e a fragilidade que o passar dos anos foi provocando.

Há um elo de ligação que se vai mantendo inquebrável. Há o sentir o respeito pelos que nos antecederam. Há lições de vida que não se esquecem. Podemos sentir muito do que ela guarda, contudo não se sente já a alegria de felizes e festivos encontros familiares que outrora iam acontecendo!

Há, no entanto, algo que se pode manter inalterável. Há a nossa capacidade de reter intactos aqueles momentos felizes vividos e tão saboreados em cada um daqueles espaços que ainda estão na nossa memória…

Sim, é a casa da avó! A avó de quem recebi mimos. A avó que me sentava ao piano onde eu descobri que podia ouvir os mais variados sons quando carregava naquelas teclas. A avó que, em dias de inverno, me aconchegava naquela salinha onde estava sempre a braseira ostentando as brasas que nos aqueciam. A avó que me adoçava com aquele pão quentinho salpicado de açúcar. A avó que nos deixou quando eu ainda senti tanta falta destes carinhos. A avó que, ainda hoje, recordo com tanta saudade e amor!

Sim, perdi a avó muito cedo, mas continuei a poder usufruir da casa, embora apenas em períodos de férias, já que nunca foi minha habitação permanente. Cresci podendo ver crescer também o usufruir de uma casa de que guardo tão vivas e gratificantes memórias.

Agora, as suas portas não se abrem de uma forma tão acolhedora como outrora acontecia, todavia eu não preciso de portas abertas para a visitar…

Assim, acontece que muitas vezes me deixo conduzir pela minha mente, subo aquelas escadas que me levam ao «chalé» e embalo-me naquele baloiço que fez as delícias de tantos de nós!

Vou também à cozinha, sento-me naquele escano onde ainda sinto o calor daquela lareira e, mais uma vez, como que posso usufruir daquele aconchego, o refúgio dos dias em que o frio mais apertava. Na verdade, vou lá sempre que me apetece, como acontece neste momento.

Também entro sempre na sala de jantar e sento-me à mesa! Uma mesa como nunca vi outra igual, uma mesa redonda ocupando um grande espaço, que a todos nos acolheu. À volta dela nos sentámos inúmeras vezes! Ali, saboreámos deliciosas refeições em dias comuns e em dias festivos, em dias que ficaram marcados para sempre! Ali, aconteceram felizes reencontros, conversas animadas, se ouviram histórias que encantaram…

Sinto uma emoção única sempre que vou à salinha da braseira, como que continuo a sentir o mesmo aconchego, a mesma serenidade, o mesmo deleite de, aí, encontrar respostas aos meus anseios e atividades que sempre tanto me cativaram:

O espaço de repouso onde em dias de verão encontro a frescura e as almofadas que convidam a um tranquilo momento relaxante.

O espaço biblioteca porque é rico o seu recheio em livros e porque também foi aqui que o meu gosto pela leitura se desenvolveu.

O espaço costura e bordado porque também aquela máquina de costura despertou a minha curiosidade e nela fiz trabalhos (nomeadamente bordados) que ainda hoje guardo e deles me orgulho.

O espaço quente de conforto para os dias frios de inverno.

E, agora, como que a cereja no topo do bolo, eis-me no salão do piano, da grafonola, das cadeiras vindas de África que ofereciam momentos deliciosos de relaxe e de boas sonecas, o canapé, as várias mesinhas ostentando fotografias, e tantas preciosas recordações africanas. Aqui, mantém-se viva essa realidade de um avô que nunca regressou de África, de alguns dos seus filhos que lá viveram grande parte das suas vidas e que trouxeram os seus testemunhos, as suas histórias de uma realidade que, sendo conhecida por muitos de nós, poderá ajudar-nos a compreender muito do que foi a África para os nossos antepassados.

Tanto que este salão nos podia contar!

Para mim, este salão começou por ser lugar de brincadeiras, também aqui me fartei de dar corda àquela grafonola, algo que me encantava quer pelas músicas guardadas naqueles discos enormes que giravam a 78 rotações por minuto, quer pelo manuseamento daquele aparelho para mim algo estranho, a grafonola.

E foi ao som dessa grafonola que, na minha transição para a adolescência, aqui vivi os meus primeiros bailes!

Bailes das férias de verão. Bailes que deixaram a doce recordação de um saudável convívio, boas amizades que ainda hoje perduram.

Aqui, aprendi a dançar valsas e tangos; marchas e pasodobles.

Recordo ainda o fascínio das descobertas…

Sempre que entrava num quarto tudo que aquelas gavetas guardavam era motivo da minha curiosidade infantil e tudo me encantava, me surpreendia, me transportava a realidades que eu não conhecia.

E os forros? Quem se aventurava a caminhar no que nos parecia ser o assustador desconhecido? Era ali que, entre nós, mostrávamos quem tinha mais coragem! Era nos forros que nos sentíamos verdadeiros espiões, pois, a cada passo, encontrávamos fendas e, deliciados, espreitávamos…

Sim, nesta casa pude usufruir de vivências inesquecíveis, felizes, de liberdade, enriquecedoras…

Aqui, trouxe os meus filhos. Aqui, eles puderam sentir muito do que, em tempos idos, tanto me encantou. Aqui, os meus filhos se puderam encontrar com um passado que, embora distante, se tornou mais próximo, mais elucidativo, mais amado!

E, num dia de férias com os netos, aconteceu também o passeio à aldeia em que a avó nasceu e, como era imprescindível, aconteceu a visita à casa da sua trisavó. Não foi preciso subirem aquelas escadas para mostrarem o seu fascínio. Mal entraram aquela porta pararam e o seu encantamento assim se manifestou:

«Avó! Parece uma casa das que só vemos nos filmes…»

Hoje, não posso dizer que esta casa é minha. Contudo ela pertence-me. Guardo-a num lugar de onde ninguém ma pode roubar: o meu coração!

About the Author: Maria Reis
Maria Reis
Nasceu em 1947. É transmontana, sonhadora. Está aposentada da profissão de professora, tendo exercido docência nos 1º e 2º ciclo de Ensino Básico. O seu percurso de vida foi seriamente afetado pela Guerra Colonial Portuguesa, travada entre 1961 a 1974, período que viveu intensamente com o sofrimento de dolorosas perdas, saudades e muita instabilidade emocional. Acredita que a vida só faz sentido quando vivida com amor.

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