por Estefânia Barroso

Olá, ansiedade! Decidi escrever-te uma carta, tornar-me faladora e fazer barulho, porque já percebi que, em silêncio, apareces mais depressa. Esta carta, portanto, é uma tentativa diplomática de te expor em palavras. Quem sabe consiga, assim, resolver mais depressa esta pequena chatice? — É esse o nome que dou à tua presença…
Começo por dizer-te: não penses que ganhaste a guerra a mais um ser humano! Digo-te com todas as letras: eu não sofro de ansiedade! Verdade, «verdadinha»: não sou uma pessoa ansiosa. E não comeces tu já a pensar para os teus botões que «sim, sim, é o que todos os ansiosos dizem», porque essa é a mais pura das verdades. Não sou uma pessoa ansiosa. Tenho, assumo, é alguns momentos de ansiedade intensa…
Posso dizer que, de um modo geral, os dias passam-se muito bem. Sinto que tudo está em ordem e o meu pequeno coração comporta-se que é uma maravilha! Já algumas noites…
Em algumas noites, aconteces, assim, do nada. Não te vejo, não te convoco, não te convido, mal penso em ti — e mesmo assim, e sem qualquer pudor, tu fazes questão de, sem qualquer razão, apareceres em cena!
É isso! A «madame» ansiedade decide aparecer, na maior parte das vezes, à noite! Quão elegante se pode ser para entrar em casa das pessoas à noite? Shame on you! Quando finalmente consigo parar um pouco da correria do dia, quando o mundo fica mais silencioso, quando, finalmente, devia descansar corpo e alma, tu decides que é boa altura para fazeres a tua entrada triunfante, entrares com a cavalaria toda e fazes acelerar o meu coração, do nada, deixando-o como se tivesse corrido a maratona.
É, então, que fico ali, a tentar respirar mais profundamente e a procurar perceber, com afinco, se essa cavalgada desenfreada do meu coração é uma forma enviesada de me fazer lembrar de algum compromisso que possa ter esquecido. Alguma reunião da minha confraria? Alguma atividade que fiquei de realizar para o grupo da Biblioteca Antoninho Ó’lho Livro? Alguma tarefa da escola? Na maior parte das vezes… nada! Um vazio. Pelo sim, pelo não, lanço uma olhadela à agenda, sem a qual não sei viver. Nada! Não esqueci nada! E, então, porquê essa vaga sensação de pânico, esse coração que bate desenfreadamente?
E, por mais que procure, tenho de o assumir: não te compreendo. Não encontro uma razão para a tua chegada intempestiva!
Respondo à tua chegada, normalmente, com alguma altivez: ignoro-te (ou tento). Decido ler, ver uma série… ainda que a cabeça esteja mais lá (na desatenção) do que cá (com o foco na leitura ou na série). Às vezes, tento discutir mentalmente contigo. «O que fazes aqui? Por que razão não te vais embora?» A verdade é que essa conversa nunca resulta, uma vez que nunca me respondes… Outras vezes apenas espero, imóvel e em silêncio, que te aborreças e vás embora, como quem espera que as visitas indesejadas, mais cedo ou mais tarde, saiam da nossa casa.
A verdade, madame ansiedade, é que com o tempo quase me habituei a essa tua mania de irromper pela casa adentro de modo inesperado. Já não fico em pânico a pensar no que poderá estar a acontecer! Hoje, és pouco mais do que ruído. Um som em surdina que irrita, mas com o qual sei lidar!
Por isso, ansiedade, digo-te sem medos, que podes continuar a aparecer sem avisar, a horas impróprias e com essa tua tendência pouco elegante para o dramatismo. Eu, por cá, continuarei com a mesma atitude: reconhecer-te à porta, deixar-te entrar sem grande cerimónia… e esperar, com alguma paciência, que te vás embora pelo mesmo caminho por onde vieste.
Estás longe de ganhar a guerra. Quando muito, vais ganhando umas pequenas batalhas — quase sempre à noite, como é teu costume.
E eu? Eu continuo aqui. A dormir bem, na maior parte dos dias. A viver… e a dar-te menos importância do que aquela que, manifestamente, gostas de exigir.
Até à próxima, ansiedade. Espero sinceramente que não seja tão cedo!




