Ana Cristina Gomes

por Ana Cristina Gomes

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A relação com o meu corpo tem sido conturbada, feita de muitos baixos, de ódio e desprezo. De negligência e apatia. Tantos anos a fechar os olhos quando me olhava no espelho. Odiava o que via. Sem fotografias, quanto mais em biquíni.

Tinha excesso de peso, mas sobretudo carência emocional, e a minha alimentação era tudo menos saudável. Não é só a anorexia e a bulimia que são reflexo de um repúdio pelo corpo que temos. Há um lado emocional que nos segrega o discernimento e, quando aliado a outros fatores, é uma combinação explosiva. E tratamos o corpo com o ódio que sentimos pelo mundo, porque achamos que o mundo não nos ama. Se ninguém nos ama, nada mais interessa. Há muitos anos, ainda não sabia que tinha de me amar primeiro.

Ouvir de outros que era gorda, e embora o fosse, é de uma violência atroz para uma miúda em pré-adolescência. Pesar mais de 90 kg, chegar a ter calças 48 e camisolas XXL. Isso fechou-me. Passei anos e anos sem ir à praia pelos complexos. Pela vergonha do corpo tão imperfeito que tinha. Escondia aquele horror que era. Senti-me tão feia durante tanto tempo. Anos a fio sem ver que a beleza está dentro de nós. Mas, sem cuidar do meu corpo, estava morta por dentro. O meu corpo era um templo em ruínas. Eu era uma quase múmia que respirava.

Não vivi muito do que uma rapariga era suposto viver: as roupas que não havia como há hoje, a maquilhagem, entre outras tantas coisas. Escondia-me de tudo e de todos. O ódio por mim afastava-me da vida.

Compreendo, hoje, depois de tantas aprendizagens, que tinha de viver isso, que faz parte do meu propósito de vida. Aprender a amar o corpo é um desafio de uma vida, como um dia alguém me disse. Porque amar o meu corpo é amar quem sou. E é tão bom amar quem me tornei com todas estas lutas. Comecei de fora para dentro. Mas talvez tivesse de ser um caminho em sentido inverso.

Não tenho o corpo perfeito, mas afinal o que é isso da perfeição? Tenho o corpo que tenho de ter para cumprir o meu propósito de vida. É o meu templo, a matéria para o meu espírito poder cumprir a sua missão. Por isso, tenho de cuidar tão bem do meu corpo, física e emocionalmente, porque é o que de mais sagrado tenho. Aprendi a aceitar a celulite, as estrias, a barriga. São a prova das batalhas que travei. Fazem parte do meu eu. Aprendi a ver-me como eu sou. A mostrar a minha essência.

Não espero a aprovação dos outros, que me digam se sou ou não bonita. Agradeço aos que me acham bonita. Se me sentir bonita, já não há comentários negativos nem destrutivos que me enterrem o coração. Esse tempo já passou.

«Ninguém te via». Uma frase que me marcou há uns meses e que foi aquele abanar de uma consciência do quanto tenho caminhado por mim e do quanto tenho conseguido transformar-me. Uma confirmação do que escrevi nas linhas anteriores e que, numa conversa descontraída com um colega que me conhece há quase 15 anos, me disse isto: «Ninguém te via». Porra, que frase simples, curta e impactante. Desnorteante. Dita sem crítica ou qualquer julgamento. De quem veio, não seria o tom nem a postura. Dizia ele: «Passavas despercebida quando estávamos todos». «Ninguém te via», disse ele. Uma constatação da Ana de outros tempos. E, numa frase, escrevem-se 30 e tal anos da minha existência.

Porque não eram os outros que não me viam. Eles não podiam ver o que não existia. No fundo, naquela altura, e durante anos, eu não existi. Estava apagada. Sem amor ou qualquer motivação para viver. Andava por aqui, só porque sim. Não me permitia ser vista. Para quê ser vista, se eu me sentia um nada na altura?

Simples, ninguém pode ver-te se não te deixas ser vista. Hoje, mais do que ser vista pelos outros, é poder ver-me como realmente sou. Permitir-me ver num profundo amor por mim e pela vida.

Que caminho longo e árduo destes anos, que este meu querido colega resumiu numa frase.

«Ninguém te via». Mas, hoje, eu vejo-me.

Foi tão difícil, de tanta crueldade de mim para mim, mas conquistei a pessoa mais importante da minha vida. Conquistei-me a mim mesma. Conquistei o amor por mim.

E permiti-me ser vista!

About the Author: Ana Cristina Gomes
Ana Cristina Gomes
Nascida em 1982, quando ainda não sabia ler nem escrever, já rabiscava tudo o que eram livros. Depois apaixonou-se pelas palavras, aliadas que a ajudaram a superar uma depressão e a conquistar o amor próprio (essa história dava mesmo um livro). Também se licenciou em Comunicação Social para estar perto dos conteúdos. Começou pela poesia, tendo um livro publicado “Esboço de um sonho” e várias participações em coletâneas. Depois veio a prosa. Tem inúmeros textos publicados na sua página de Instagram e espera um dia poder compilá-los num livro, a par do outro livro que fervilha no coração.

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