por Inês Biu Faro

Já não sabendo bem como, surgiu o desafio interno (entre escritoras da emootiva) de escrevermos um conto erótico só para partilharmos no nosso grupo e não no website. Ficámos entusiasmadas com o desafio e por sairmos da zona de conforto. Confesso que para mim até é uma zona confortável, dado que leio alguns livros com cenas smut e há uns anos aventurei-me a escrever alguns contos eróticos.
Não vou deixar-vos aqui o meu conto, ainda que seja publicável, mas confesso que me soube muito bem alinhavar ideias e pensar como sair do romantismo habitual da Violetta e do Bruno e torná-los mais carnais, lascivos mesmo, mantendo a linha de paixão e romance com que me habituei a escrever sobre este meu casal ficcional.
No entanto, o que me traz aqui é o tabu. Como é que o erotismo ainda é tão escondido e demonizado, quase proibido (nalguns casos, capaz de ser mesmo proibido)? Claro que é preciso ter noção da decência e dos valores de cada um e até mesmo da sociedade, mas não nos caem os parentes na lama se se falar sobre isso, se se partilharem desejos e fantasias, quer entre amigos, quer com os parceiros.
Podemos recuar no tempo, até à civilização grega, e lembrar-nos de Eros, o deus do Amor e do Desejo (que, na mitologia romana, é conhecido como Cupido) e, da mesma altura, dos bacanais, das demais festas onde comer e beber não eram as únicas atividades praticadas, sem quaisquer pudores ou preocupações de género. Lembremo-nos da mitologia grega, em que Zeus até com animais fornicava. Ao longo de toda a história da humanidade, o erotismo esteve sempre bem presente nas artes e, até, nos gestos mais simples entre duas pessoas, como toques subtis nas mãos, piscares de olho, símbolos e acessórios nas roupas que poderiam indicar interesse em alguém ou algum género em específico (cravos verdes diz-vos algo?) e até mesmo compositores que, solteiros ou com casamentos de fachada, transcreviam para as suas composições as suas paixões secretas e/ou homossexuais. E, sim, a música pode ser tão erótica quanto quadros com pessoas nuas.
A pornografia, que é diferente do erotismo, veio demonizar e confundir tudo, perdendo-se um bocado a noção de que um é explícito e o outro não tem de o ser. Pelo contrário, para mim, quanto mais discreto e subtil, mais erótico será.
Também a par com a evolução da humanidade, vieram a sociedade opressiva, maledicente, e as religiões a quererem esconder tanto que tornaram a sexualidade suja, uma conspurcação da alma, do corpo, de todo o ser e até de coisas abstratas como a honra.
Continuando a avançar no tempo, há alguns anos o erotismo voltou ao vocabulário diário. Tudo por causa dos livros de E.L. James, «50 Sombras de Grey». Não escreveu nada de novo — nada que já não existisse ou tivesse presença na prosa, poesia, pintura, música, escultura, cinema, teatro, por exemplo. A diferença está no atrevimento, na ousadia, na liberdade que houve para se escrever, comprar e ler. Pese embora haja quem diga que, se o personagem principal não fosse milionário, seria apenas violência doméstica, não é esse o ponto. O que é facto é que despertou as mentes de todos aqueles que leram os livros, viram os filmes e quiseram ler mais livros do género, livros esses que proliferaram um pouco por todo o lado nos últimos anos. E há relatos de casais que melhoraram os seus relacionamentos quando abriram as suas mentes e começaram a partilhar os seus desejos entre si.
O que se defende atualmente, a par com os direitos LGBTQIA+ e as não-monogamias e poliamor, é também o erotismo. Poder desejar alguém é tão bonito quanto poder amar essa mesma pessoa. Termos o direito de não o esconder, dentro dos limites e liberdades. Não negarmos amor a ninguém e permitirmo-nos ser mais verdadeiros com o que sentimos e desejamos, passando, sobretudo, pelo erotismo. Podermos dedicar poemas, canções e quadros. É que — não sei se estão a par — o erotismo e o desejo carnal também ajudam muito na autoestima. Quantas de vocês já não tiveram dias em que acordaram a sentir-se mal convosco mesmas e receberam uma mensagem carregada de entrelinhas vinda de quem mais queriam e isso melhorou logo o vosso dia? Erotismo e assédio são coisas diferentes: uma é consentida e a outra não, vamos ter isso em conta!
Lembremo-nos de algo de suma importância: é a partir do orgasmo que nascemos e antes do orgasmo vem todo o erotismo e desejo que envolve o relacionamento físico. Se assim não for, perdoem-me, mas é apenas violência física e emocional.



