Daniela Rodrigues

por Daniela Rodrigues

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Vou voltar a ser pequenina e viajar no tempo para te escrever uma vida inteira, quer estejas aqui ou não.

Ainda consigo ver-te quando acordavas de manhã: penteavas os teus longos cabelos grisalhos e amarravas o teu poupo (ou carrapito, como lhe chamam aqui, onde vivo agora). Gostava de ter essa tua destreza de dedos, poder entrançar o meu cabelo e enrolá-lo num poupo, tal e qual como tu fazias. Mas, como não tenho esse jeitinho, guardo esta memória tua com carinho.

Lembro-me que sabias qual era o meu bolo favorito! Aqui, onde vivo, ele não existe. Tenho saudades dele e tuas. E tuas!

Agora, as escolas têm cantinas e refeitórios. Dantes, eu tinha algo muito melhor: tu e a tua comidinha! Levavas-me à escola de manhã, por aquele caminho que nunca me atrevi a fazer sozinha, e voltavas para casa de seguida. À hora de almoço, lá estavas tu na entrada da escola, com o meu almoço preparado. Como vivíamos um pouco longe, em vez de fazer o caminho para casa, almoçar lá e voltar… levavas tu o meu almoço. Ali, mesmo em frente à escola, há uma capela e era nos bancos junto aos muros que a rodeiam que me sentava a almoçar. Nunca te vi comer. Será que almoçavas antes de sair de casa? Ou depois de voltares? Hoje, dava tudo para voltar a comer as refeições que preparavas. Ainda no outro dia falámos sobre isso: ninguém consegue reproduzir o sabor da tua comida, seja numas simples batatas fritas, na sopa de alface ou naquele arroz feito no alguidar de barro e cozinhado no forno de lenha.

Não aprendi contigo a amassar o pão, a fazer os biscoitos, o folar, as bolas… Quando somos crianças, pensamos que temos todo o tempo do mundo pela frente para aprender mais tarde, escrever receitas noutro dia… mas o tempo passa dos dois lados e isso, talvez, seja o que magoa mais tarde.

Lembro-me de um pormenor tão banal quando fazias os biscoitos. Algo simples, mas que mostrava que te importavas: o meu pai não comia os biscoitos que eram pincelados com ovo, então tu fazias alguma quantidade sem essas pinceladas, para ele poder comer à vontade.

Queria ficar parada no tempo, naqueles dias em que decidias ir às giestas fazer os molhos de lenha para a lareira e eu ia contigo. Tu carregavas molhos e eu trazia um raminho a arrastar pelo chão. Tu não ias sozinha e eu gostava desse tempo nosso. Hoje, esses sítios já nem existem.

Depois, cresci. Dormi contigo até mudarmos de casa. Ainda vimos uma telenovela juntas e, antes de deitar, rezávamos sempre. Hoje, acho que talvez já nem saiba rezar. Desculpa.

Cresci mais e, um dia, estávamos no teu terraço, só as duas, a conversar. Lembro-me como se fosse hoje, agora mesmo. Tu disseste que eu já devia ter um rapazinho debaixo de olho. Eu olhei para lá, sorri e respondi-te que estava mesmo debaixo de olho. Talvez nem tenhas percebido, mas aquela foi uma confissão e tinha tudo nas entrelinhas.

Um dia, vim embora. Tornei-me adulta. Construí a minha própria família. E, sempre que volto, é só para visitar — nunca para ficar de novo. Numa das minhas visitas, contaste-me histórias, daquelas que acontecem, que a vida deixa marcadas em nós pelo resto dos nossos dias. Contaste-me dos desafios que passaste e, juntando tudo, como haveria de não te admirar? Não tenho metade da tua força, garra e coragem. Mas ainda te tenho a ti, mesmo longe.

O teu bisneto, do alto dos seus 4 aninhos, quando me viu chorar, na altura em que estiveste doente, disse-me que eu tinha medo de um dia aí voltar e tu já não estares. Eu sei que ele tinha toda a razão. Porque, no dia em que fores, perco a minha referência, quebram-se as origens, desvanece-se o motivo para voltar, deixa de haver morada.

Passei os últimos anos a pedir mais tempo e mais vida. O meu desejo era só um: ter uma menina, dar-lhe o teu nome e colocar-ta nos braços. Para ver o futuro no colo do passado e para saberes que continuarias comigo pelo resto da vida. Mas a vida tinha outros planos…

Ainda te tenho aqui, mesmo longe e, enquanto tu estiveres, eu estarei também. Não te atrevas a ir! Não consigo lidar com isso agora. Não te quero perder. Não me quero perder.

E aquela caminhada de que falámos? Aquele destino até onde querias ir a pé, numa das últimas videochamadas que fizemos e em que te riste (nos rimos), vai ser feito. Prometo!

Promete-me tu que vais continuar aqui comigo, connosco.

Amo-te, avó O.

About the Author: Daniela Rodrigues
Daniela Rodrigues
Nascida e criada no coração do Douro, entre o rio, as vinhas e as paisagens de tirar o fôlego, Daniela é apaixonada pelas palavras (e pelos violinos). Escreve desde que se lembra e transforma emoções em palavras, dando vida a histórias que aquecem o coração e envolvem quem a lê, num abraço terno, doce e, um tanto, encantado. Traz em si a imensidão dos sonhos; acredita no amor e nos finais felizes; carrega consigo a essência da saudade e todos os desejos que a fazem viver.

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