por Estefânia Barroso

Quando olho para trás, percebo que se passou praticamente uma vida sem os meus avós. Contudo, constato que todos eles continuam tão presentes na minha memória, em formas de ser, estar, de pensar, em sabores que gosto porque os conheci com eles, que não parece que passaram tantos anos. A verdade é que os avós deixam raízes em nós que permanecem para todo o sempre. Eles são parte do que somos e, por isso, não serão esquecidos.
Os nossos avós oferecem-nos bem mais do que os genes e é interessante procurá-los naquilo que somos, identificar as marcas que deixaram em nós e que nos moldaram. Da minha avó Celeste herdei duas coisas: a saudade de sabores que nunca mais encontrei – como o maranho e o sabor incomparável de uma tigelada cozinhada num forno a lenha – e a certeza de que uma mulher pequena pode ser gigante.
A minha avó Celeste ensinou-me que há uma força invisível em nós que nos leva a resistir, a não desistir da vida, ainda que não pareça haver muitas razões para continuar a lutar. Mulher muito pequena, muito magra, mas dona de uma força (física e mental) infinda, mostrou-nos que o amor infinito pelos netos pode ser uma razão para seguir em frente, continuar a viver. E é nos momentos em que sinto que as coisas não fazem muito sentido, que penso nela e na sua força e penso: «Tens obrigação de continuar em frente e cara alegre!»
Do meu avô João, avô materno, guardo o amor pelos animais. Lembro-me tão bem de o ouvir chamar pela Serafina, «Fininha», a gata a quem queria ofertar um qualquer petisco! Como ele gostava daquela gata! E, se ainda hoje sou uma apaixonada pelo burro (razão pela qual quis dedicar-lhes um conto no meu «Contos com bichos lá dentro»), a ele, o meu avô João, e ao meu avô Zé Joaquim, o devo. Desde que me lembro de ser gente que recordo a existência de burros na casa dos meus avós! E das memórias mais caras que tenho do meu avô João é a de ele levar o burro pela mão, carregado com seis pequenos netos, a passear pelas ruas da aldeia. Sabem a definição de ternura? Sim, essa definição está presente na fotografia que capturou este momento. Dele ficou-me a memória do amor sereno pelos seus. Ficou também uma mania curiosa: sempre me lembro de o ver tomar o pequeno-almoço numa almoçadeira enorme. Anos mais tarde, a sua neta, que escreve estas memórias, não abdica de ter duas ou três almoçadeiras de eleição onde toma o seu pequeno-almoço.
Do lado paterno, não consigo falar do meu avô Zé Joaquim sem ter um sorriso no rosto.
Não vou mentir. Não era o mais carinhoso dos avós. Pelo menos, não demonstrava grandes afetos com beijos e abraços. Os tempos de vida deles também não eram dessas manifestações de carinho, há que assumi-lo. Mas amava os netos à sua maneira e gostava de os levar ao café para lhes oferecer um qualquer mimo. Apesar de tudo, guardo muito dele em mim. Guardo um certo dom para o sarcasmo, um olhar irónico para as situações e para as pessoas e, lá no fundo, um bom coração a roçar a lamechice. Partiu demasiado cedo, deixando um espaço vazio na mesa da minha avó, mas a verdade é que continuou presente em muitos de nós naquela sua forma tão particular de ser.
E, por fim, a última a partir, a minha avó Maria do Rosário a quem todos chamavam Maria Antónia. A avó que me deixou, para sempre, a saudade do seu arroz doce. A avó cuja calma e paciência, perante a vida, me deixaram o desejo de ser como ela. A avó que resolvia tudo sem se enervar ou levantar a voz. Aquela mulher que não se deixava irritar por uma resposta torta nossa. Limitava-se a virar costas, mostrando o seu total desinteresse por aquela palavra mal dita. A avó que ria com gosto, de boca aberta, mas sem sair um som. Guardou quase até ao fim esse dom de dar uma gargalhada silenciosa… É aquela que, por ter vivido mais anos, me deixou mais recordações e lembranças. No entanto, é aquela cujas qualidades menos encontro em mim. E tenho pena. Da minha avó guardo muitos momentos, muitas histórias, que já fui contando por aqui, ao longo de muitas e muitas crónicas.
Da minha avó Maria do Rosário não herdei a calma que tanto admirava. Ainda não. Mas talvez as heranças dos avós também sejam isso: algumas acompanham-nos desde sempre, outras passam uma vida inteira a ensinar-nos quem gostaríamos de ser.
Uma certeza me fica: enquanto continuarmos a descobrir em nós pedaços deles, os avós nunca morrerão verdadeiramente. Afinal, crescer talvez seja isto: perceber que uma parte da pessoa que somos continua a ser feita daqueles que julgávamos ter perdido.



