Maria Reis

por Maria Reis

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Alguém disse: «Saber envelhecer é a obra-prima da sabedoria e um dos capítulos mais difíceis na grande arte de viver.» E eis-nos perante algo que faz parte desta nossa caminhada: o envelhecimento!

Como cada um de nós vive este percurso da vida? Na verdade, como em todas as facetas da vida, encontramos as mais diversas situações…

Não sou detentora de grandes conhecimentos. Apenas me enriquecem o meu sentir e a minha experiência de setenta e nove anos de caminhada, anos que ainda não me pesam, mas que me levam a fazer algumas reflexões.

O meu saber vem do que vou observando, do que a vida me vai trazendo, do que me faz sorrir ou chorar, do que me dá forças ou me tira o alento, de tudo isso que é viver!

Olhando para trás, vejo que muita da força que me tem acompanhado veio nos momentos mais difíceis, aqueles em que troquei as lágrimas por resiliência. As lágrimas apareceram mais vezes quando ficaram vencidas as batalhas mais difíceis!

Olhando para trás, sinto-me grata. Se me foram aparecendo obstáculos, se tive de superar dificuldades, se passei algumas noites sem dormir na busca exaustiva de soluções perante dilemas, nunca fiquei caída. Segui sempre lutando para alcançar os meus objetivos.

Olhando para trás, vejo, sim, que cada passo dado ao longo dos anos vividos foi mais um degrau que subi, mais um cabelo que pintei de branco, mais uma ruga que se foi desenhando, mais um alerta a pedir o abrandamento da marcha. Foi, afinal, um constante envelhecimento.

Olhando para trás, vejo as boas sementeiras que fui preparando, os fortes alicerces que fui construindo.

Olhando para trás, fico com a convicção de que o bom ou mau envelhecimento resulta em grande parte das nossas escolhas, das nossas atitudes, dos nossos cuidados, da forma como vamos enfrentando a vida…

Será o envelhecimento uma fatalidade, como tantos o apregoam?

É meu entender que o envelhecimento é um privilégio que nem a todos é concedido!

Envelhecer é viver!

Envelhecer é saber aceitar tudo o que a vida, de bom ou menos bom, nos vai trazendo e nunca deixar de devolver o nosso sorriso, a nossa gratidão.

Envelhecer não pode ser um constante olhar para trás, lamentando «no meu tempo é que era bom…»

Envelhecer é, sim, assumir que o nosso tempo é sempre o agora!

Que o agora e o hoje sejam valorizados, sejamos nós capazes de agarrar as novas oportunidades que sempre vão surgindo.

Hoje, depois da caminhada por mim já percorrida, são mais visíveis os sinais de envelhecimento. Sim, mentiria se dissesse que é muito fácil sentir que o encanto e a leveza de outrora já se perderam. Todavia, não minto ao dizer que fui encontrando outros encantos, outros motivos que me levam a saborear a vida, que me continuam a proporcionar alegria de viver…

Acontece que vou ouvindo lamentos de quem tem dificuldade na aceitação deste acumular de anos vividos. Muitas vezes me dizem que, agora, estamos no inverno da vida…

Em boa verdade, ainda não necessitei de me lamentar e, ao invés de me sentir nesse apregoado inverno, tenho a sensação de estar a viver um aconchegante verão, onde posso ir colhendo saborosos frutos daquelas minhas sementeiras em que, com todo o carinho, me fui empenhando ao longo da vida. Sementeiras que, afinal, continuam a ser uma das minhas tarefas preferidas…

Sim, instalou-se em mim esse verão, já que me sinto aconchegada neste meu viver de boa harmonia e conforto, de coração quente.

Vivo este agora, este meu tempo com deleite!

Outrora entreguei-me com afinco a um trabalho exigente, contudo gratificante e necessário face às obrigações da vida e realização de objetivos. Hoje posso entregar-me a muito do que estava adormecido em mim e que sempre me acompanhou, embora ficando continuamente em segundo plano…

Há, então, outros objetivos a atingir, outros sonhos ainda não realizados!

E, finalmente, sinto-me dona deste meu tempo e vivo com a liberdade de o poder gerir de acordo com a minha vontade.

Num certo dia, numa animada conversa, a minha filha comentou: «Reparem! Fazem uma pergunta à minha mãe e ela responde com uma história.»

Esta situação faz-me recordar algo que, um dia, li e que não mais esqueci: «Feliz é quem envelhece com histórias para contar e não com mágoas para guardar.»

Tanta história para contar! E, sim, há também uma bela história de amor!

Devo assumir, também, que esse amor tem sido uma grande força. Foi com essa força que tudo se tornou mais fácil, mais suportável, mais belo e mais possível!

Esse amor continua a ser vivido, acrescentando mais doçura, mais brilho, mais ânimo a esta caminhada.

E as mágoas? As mágoas são espinhos que, se os deixarmos ficar cravados, nunca deixarão que a vida seja desfrutada na sua plenitude…

Não é fácil lidar com essa dor que nos aprisiona, nos limita e compromete consideravelmente a nossa alegria de viver.

Sim, sei como é estar aprisionada por esse pesadelo! Sim, sei como esse pesadelo faz sofrer!

E, sim, também sei o que me trouxe o delicioso sabor de uma eficaz libertação: O perdão!

Aprendi como saber perdoar é, afinal, uma arma tão poderosa…

Perdoar não nos faz esquecer. Perdoar cura deixando ficar uma cicatriz indolor. Perdoar traz-nos paz.

Hoje posso dizer que «saber perdoar» foi uma das mais valiosas aprendizagens que a vida me proporcionou.

Acontece também que, com o passar do tempo, vamos percebendo melhor os erros cometidos. Sejamos corajosos aceitando esses erros, saibamos reconhecê-los e não deixemos que eles comprometam o nosso viver, provocando-nos a angústia da culpa.

E, sim, devo dizer que também encontrei no autoperdão um poderoso aliado para conseguir libertar-me dessas culpas, conquistar a minha liberdade emocional.

A nossa vida é, afinal, uma constante aprendizagem. Tenhamos bom aproveitamento nessas aprendizagens e poderemos conseguir uma vivência harmoniosa.

Em boa verdade, estar de bem com a vida é uma conquista que vamos fazendo no nosso dia a dia, através dos nossos comportamentos, das nossas decisões, da forma como olhamos em nosso redor…

Gosto de dizer que sou da colheita de mil novecentos e quarenta e sete…

Após ter vivido todos estes anos, sinto enorme gratidão pelo que consegui amealhar até hoje, não me referindo a bens materiais. Enriqueci mais com bens que o dinheiro não consegue comprar e, devo dizer, são bens que me trazem muita felicidade.

Como será daqui para a frente? Não me preocupam as previsões futuras… Continuarei, como até aqui, a saborear a vida que me é concedida!

Há sempre sonhos por realizar, projetos por concluir, sementeiras a preparar…

About the Author: Maria Reis
Maria Reis
Nasceu em 1947. É transmontana, sonhadora. Está aposentada da profissão de professora, tendo exercido docência nos 1º e 2º ciclo de Ensino Básico. O seu percurso de vida foi seriamente afetado pela Guerra Colonial Portuguesa, travada entre 1961 a 1974, período que viveu intensamente com o sofrimento de dolorosas perdas, saudades e muita instabilidade emocional. Acredita que a vida só faz sentido quando vivida com amor.

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