por Estefânia Barroso

Este ano, o concurso de professores, ao qual continuava a ter de concorrer anualmente, ditou que deixasse de trabalhar naquela que foi a minha escola durante os últimos sete anos, tendo ficado colocada numa escola bem mais perto de casa. Neste momento, estou a trabalhar a uns 25 quilómetros de casa. Desenganem-se aqueles que já estão a pensar dar-me os parabéns. Não foi essa a minha escolha. Não era essa a minha vontade.
Eu sei que trabalhar perto de casa é um luxo que poucos se podem oferecer, mas para mim esta não era uma questão primordial. Se a minha vontade se concretizasse, estaria definitivamente na minha «escola-casa», a minha querida Escola Básica de Silvares. Contudo, o que ouço de muita gente é que devia estar feliz, sobretudo pela questão da distância. Mas não estou. E a questão não se prende, essencialmente, com a nova escola. Prende-se, sobretudo, com o sentimento que tenho pela escola onde tenho trabalhado nos últimos anos. E esse sentimento é de pertença.
Ali, não sou apenas mais uma professora de Educação Especial. Não sou «a professora de apoio», como ainda gostam de nos chamar, «do aluno x ou y». Eu não sou um simples número de funcionário que serve para fazer pagamentos no bar ou para pedir fotocópias. Eu sou a Professora Estefânia. Não um número. Não uma função. Um nome. E isso é um luxo que nem todas as escolas conseguem oferecer.
A escola para onde vou é uma escola grande. E, por isso, a maioria das pessoas é pouco mais do que um funcionário que vem ali para cumprir as suas tarefas. Mais um. Um número. Para muitos, isso é ótimo. Cada um faz o seu trabalho e segue a vida. Mas eu não gosto de viver a escola desta forma. A seu tempo, poderei até ser conhecida. Mas duvido que algum dia seja reconhecida — isto em termos de saberem, de facto, quem eu sou, nas minhas múltiplas camadas.
Sermos reconhecidos significa que já pertencemos àquele local, somos mais que a função que nos leva ali. Pertencemos, somos parte daquela comunidade. É por isso que, na minha escola, na EB de Silvares, todos sabem um pouquinho da vida do outro. Todos reparam quando faltas e, se for preciso, telefonam para saberem o que se passa. É claro que muitos poderão pensar que isto é invasivo. Mas não é feito com essa intenção. É feito por genuína preocupação com quem ali trabalha. Porque cada colega é visto, antes de mais, como uma pessoa. Não é sentirmo-nos vigiados. É sentir que pertencemos.
É claro que esta minha preferência por escolas pequenas tem também a ver com o meu gosto pelas pequenas vilas e aldeias onde normalmente se inserem. Gosto de viver numa vila onde as pessoas me conhecem, onde as pessoas dizem «bom dia, Estefânia», onde as pessoas se preocupam porque percebem que nunca mais te viram passear o cão. Sou da província e gosto mesmo de viver em sítios mais pequenos. É um facto que muito nos falta nas pequenas vilas e nas pequenas cidades. Note-se, por exemplo, que para ver um bom espetáculo tenho de me deslocar, na maior parte das vezes, a uma grande cidade. Não há problema! Prefiro fazer o caminho de ida e volta as vezes que forem precisas e, no fim, regressar ao lugar onde as pessoas sabem quem eu sou.
Talvez, um dia, esta nova escola também se torne casa. Talvez, daqui a uns anos, esteja a entrar pelo portão e haja quem me pergunte pelo Baltasar, quem saiba que escrevo, quem conheça os meus silêncios e as minhas gargalhadas. As relações também precisam de tempo para criar raízes.
Mas, até lá, aprendi uma coisa sobre mim. Afinal, aquilo que procuro nunca foi uma escola perto de casa. O que procuro é uma escola onde me sinta em casa. Porque há uma diferença enorme entre trabalhar num lugar e pertencer-lhe. E esse sentimento, ao contrário dos quilómetros, não aparece em concurso nenhum.



