por Inês Biu Faro

– Desculpe, menina, não pude deixar de reparar. Costuma vir aqui todos os dias, não é?
– Sim, gosto de sair do trabalho e reservar um momento só para mim antes de ir para casa e regressar à rotina.
– E gosta muito de ler…
– … é a melhor maneira de sonhar acordada, com romances.
– Desculpe que me intrometa, mas a menina é tão bonita. Espero que, um dia, tenha o seu romance. Boas leituras e até outro dia.
– Oh… obrigada! – Violetta sentiu-se a corar e não conseguiu dizer mais nada.
Violetta ficou sem reacção. Não pela interrupção dos seus sonhos literários, mas por ter sido vista, notada. Estava habituada a ficar invisível naquele banco, com os seus livros, dia após dia. E, quando começou a cair em si, percebeu que não só não esperava ser abordada, como por um homem, aquele homem.
Há meses que tinha desistido das aplicações de encontros. A última vez que tinha tido sorte durara tão pouco que a deixou desiludida com este método para conhecer outrém. E foi quando menos esperou que um homem bonito, com boa energia e simpático, a abordou, sem sequer ter dito o seu nome ou perguntado o dela. Um diálogo curto e que a fez sonhar o resto da noite: «Será que o verei novamente?» «Será que era mesmo um homem ou o Matteo saltou do meu livro para a realidade?» Violetta tinha tendência a sonhar acordada com os parágrafos que tinha acabado de ler, querendo fazer parte destes romances.
– Olá, como está? Ontem, não lhe disse, não quis parecer-me intrometido. Há já algum tempo que reparo em si, na sua serenidade no meio do caos citadino. Demorei para meter conversa consigo, mas não conseguia esperar mais e enchi-me de coragem…
– Mas… mas… eu meto medo, para precisar de coragem? – Violetta parecia algo intrigada e ofendida.
– Muito pelo contrário! A sua tranquilidade é tão bonita que é preciso coragem para a interromper. Desculpe, não me apresentei: chamo-me Bruno e também passo por aqui todos os dias.
– Olá! Sou a Violetta. Obrigada pelos seus elogios de ontem e hoje. Não sei como consigo, mas o facto é que, se não tiver este momento para mim e para os meus sonhos, sinto que a realidade da vida quotidiana me trará agruras. Ler sempre me ajudou a manter o brilho nos olhos.
– E que olhos…
– Diga?
– Desculpe… – Bruno corou e Violetta soltou um sorriso tímido – tem um sorriso tão bonito quanto o seu olhar. Posso convidá-la para um café?
– Pode, sim. – Violetta não sabia se estava mesmo a viver aquele momento ou se seria mais um dos seus sonhos acordada.
O café prolongou-se para jantar e, no final da noite, já se tratavam por «tu» e tinham trocado números de telemóvel e redes sociais. As primeiras mensagens chegaram ao amanhecer do dia seguinte. Combinaram voltar a encontrar-se ao final do dia, mas na condição de Bruno levar um livro e permitir-se sentir a tranquilidade que Violetta sentia e de que ele tanto gostou.
– E o teu livro?
– Não trouxe nenhum… Olhei para a minha estante e reparei que não tenho quase nenhum romance. São quase todos livros técnicos, desde os tempos da faculdade. Sabes?
– Entendo. Então, é a minha vez de te pedir desculpa pela intromissão. Pensei em emprestar-te este. Espero que gostes.
– «Olhai os Lírios do Campo»? Não conheço.
– É um bonito romance para te estreares no género. – Violetta sentia-se muito orgulhosa de si mesma, de conhecer bem os seus romances favoritos e sentir-se confiante para os recomendar. – Vais gostar. Confia em mim.
– Obrigada. – Bruno corava – Vou confiar. – Deu-lhe um beijo no rosto e confirmou o que tanto o atraía em Violetta: a sua beleza natural, o seu brilho.
Os encontros passaram a ser quase diários. Depois de uma hora de leitura, sentados no banco, seguia-se outra hora de conversa e comentários sobre o que liam e o que poderiam sugerir um ao outro. Violetta sentia-se cada vez mais à vontade, com menos inseguranças e medos. Chegava a casa feliz. Contava o seu dia às suas gatinhas, Mimi e Musetta. Não queria sonhar demais, mas não resistia. Estava a viver momentos parecidos com aqueles sobre os quais lia e imaginava. Bruno parecia-lhe ser um bom homem: bonito, simpático, inteligente, conversador. Se não acontecesse nada de romântico, sabia que, pelo menos, um novo bom amigo teria. Mas quem é que ela queria enganar? Claro que ela sonhava com os momentos românticos. Não era por acaso que lhe sugeria e emprestava os seus romances preferidos, dos seus autores preferidos.
Às leituras diárias juntaram-se os passeios aos domingos, por onde lhes apetecesse. Violetta mal podia esperar por voltar a encontrar Bruno. Ainda assim, retraía-se: não queria magoar-se novamente, não queria dar e não ser retribuída, muito embora permitisse que ele tivesse gestos ternurentos para consigo. Mãos dadas, beijos no rosto, abraços quando o tempo começou a esfriar.
– Violetta, faz hoje um mês que meti conversa contigo pela primeira vez!
– Não tinha dado conta… – Violetta ria-se timidamente.
– Não sabes mentir. Sabes melhor que eu. Hoje, posso eu sugerir-te um livro?
– Já conheces mais romances?
– Conheço. Tenho sido bem ensinado.
– Diz-me… – Violetta sentia-se lisonjeada e estava ansiosa por saber que livro receberia. – «Para Sempre Teu»?
– Acho que o título diz tudo, não achas? – Bruno nunca se sentira corar tanto quanto hoje. Aos 35 anos, sentia-se apaixonado e percebera a linguagem de amor de Violetta. Queria retribuir tudo o que já tinha recebido dela.
– Aceito! – Violetta sentiu-se a sorrir como nunca. – Aceito que sejas meu para sempre. – Bruno segurou-lhe ternamente no rosto e beijou-a. Sentiam ambos os frémitos de um amor adolescente, com a maturidade que os 35 traziam.
A rotina bonita e tranquila de lerem juntos, no banco do café, instalou-se. Violetta continuava a sentir-se bem com a sua solidão, embora agora estivesse acompanhada. Continuava a sonhar e a mergulhar nos seus livros como sempre fizera. Sentia que compreendia, cada vez melhor, as personagens das suas histórias e que já não precisava de as invejar. Vivia, agora, o seu romance com Bruno. E tudo graças aos livros, àquele banco e aos seus sonhos.




