Sónia Brandão

por Sónia Brandão

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Os verões da minha vida. Tive tantos que perduram na minha memória.

Alguns serão sempre recordados com mais carinho do que outros, mas todos têm um lugar especial dentro do meu coração.

Crescer numa aldeia é algo difícil de explicar a quem cresceu numa cidade. É quase impossível transmitir a sensação de liberdade com que se vive, mas vou tentar.

Eu cresci numa aldeia perdida entre serras magníficas e majestosas e o mar, que, embora perto, parecia muito longínquo pelas distâncias tão longas naqueles anos.

Mas tive sempre uma visão privilegiada sobre a Ria de Aveiro, sobre os barcos minúsculos que por lá circulavam.

Aprendi a amar a serra e a ter o prazer da água, nos rios e riachos por onde ela deambula.

A praia era um luxo que acontecia poucas vezes ao longo do verão. Era uma excursão de um dia: íamos de manhã e voltávamos ao fim do dia, com tudo o que é cliché — piquenique, guarda-sol, jogos, toalhas, bolas, tudo a que tínhamos direito.

Contudo, na minha família, íamos mais vezes até às praias fluviais. Os adultos tinham esperança de que aprendêssemos a nadar e, no Douro, era mais fácil isso acontecer pela falta de ondas. Mesmo assim, de todos nós, poucos aprenderam.

Mas a verdadeira essência daqueles verões eram os rios, os tanques cheios de água para regar as culturas dos campos, e que nós esvaziávamos para chapinhar e fingir que sabíamos nadar — para desgosto da minha mãe, que, volta e meia, tinha de se desculpar com alguém pelas nossas aventuras.

Para muitos, pode parecer uma prisão passar três meses numa aldeia, mas para nós significava liberdade, no verdadeiro sentido da palavra.

Nunca precisávamos de marcar nada — todos aparecíamos no mesmo local e daí partíamos para as aventuras.

Para além da fuga para a água mais próxima, também tínhamos outra grande alegria: o regresso dos emigrantes, dos amigos que só voltavam um mês por ano, mas que traziam com eles toda uma nova realidade.

Chegavam no início de agosto e tínhamos um mês de festa, aventura, dança, risos e sorrisos.

Havia sempre um aniversário para festejar — habitualmente, era a festa de despedida, no fim de agosto.

Mas não precisávamos de desculpas ou pretextos para festejar. Criávamos festas, colocávamos música e dançávamos tardes e tardes a fio. Passávamos por todos os estilos musicais, desde o «Querido mês de Agosto» até aos clássicos dos Nirvana, sem discriminação alguma.

Era mais uma desculpa para estarmos todos juntos a criar memórias. Nós queríamos estar juntos.

Recordo-me de um verão em que uma querida amiga teve um acidente de mota e ficou confinada em casa todo o verão. Nós aparecíamos em casa dela todos os domingos e fazíamos a festa — mais de vinte pessoas a rir, a jogar, a conversar, e, no fim da tarde, éramos recompensados com o banquete que a mãe dela nos preparava.

Ninguém reclamava por estar ali. Queríamos estar juntos — e isso bastava.

Com o passar dos anos, fomos crescendo. Apareceram os primeiros amores, os primeiros beijos escondidos, as primeiras bebidas proibidas, as primeiras lágrimas pelos desgostos de amor inevitáveis.

Mas sorríamos. Todos sorríamos. Estávamos seguros, mesmo quando fazíamos escolhas arriscadas como “nadar” sem saber nadar. Éramos livres. Não tínhamos filtros. Éramos todos iguais — crianças/adolescentes a viver a vida por ela mesma.

Os vínculos que criámos, naqueles anos, continuam presentes hoje. Continuamos a encontrar-nos no verão. Hoje, com muito mais pessoas que foram chegando às nossas vidas, mas continuamos a estar juntos em alguns momentos. Para recordar o que vivemos — e criar novas memórias.

About the Author: Sónia Brandão
Sónia Brandão
Apaixonada por palavras, aprendeu, desde nova, a criar realidades paralelas na sua mente — onde tudo era possível. "Amor de Perdição" foi o primeiro livro que leu. Tinha 13 anos e foi a mãe que lho sugeriu para se ocupar. Desde então, nunca mais parou de ler. Durante alguns anos, no entanto, parou de escrever: sentiu que tinha deixado de fazer sentido. Mas o confinamento fê-la regressar à escrita com mais força e determinação. Este ano, surgiu a vontade de partilhar com os outros o que coloca no papel.

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