por Sónia Brandão

Chegaste devagar.
Chegaste cheio de vontade de ficar.
Chegaste cheio de planos.
Chegaste.
Partiste.
Entre a tua chegada e a tua partida, nada ficou igual.
Aquela vida, agora, parece-me uma espécie de sonho tornado pesadelo.
Eu escolhi viver uma mentira que, depois de muitas vezes contada a mim mesma, quase se tornou realidade.
Precisei que outros me alertassem para isso, porque eu já não tinha essa perceção. A minha realidade estava demasiado longe do que os meus olhos mostravam.
Chorei mais do que queria.
Sofri aquilo que precisava.
Tive a tentação de olhar para trás demasiadas vezes, mas poucas o fiz.
Percebi que a minha realidade era melhor sem a tua presença nela.
Não era uma ilusão.
Fiz tudo o que quis e me foi permitido durante este tempo.
Vivi aquilo que ainda não tinha. Superei momentos em que precisei de todos em meu redor. Avancei para novas paragens. Enfim, deixei a vida acontecer dia após dia.
A tua imagem desvaneceu-se.
As minhas rotinas mudaram e eu segui.
Mas…
Será a vida um jogo constante de partidas preparadas para nos deitar por terra?
Não sei responder…
Por vezes, acho que sim: a volta de pessoas, de momentos, nem sempre significa que estes não estão resolvidos dentro de nós.
Por vezes, somente significa que não se encontram resolvidos para o outro.
Tu resolveste tudo o que aconteceu de uma forma tão pacífica e positiva como eu?
Ou afundaste-te dentro de uma bolha de ilusões, como em outras ocasiões no passado?
Talvez nunca tenha acesso a essa resposta. Adorava poder saber, porque, mesmo já não estando aqui, continuas a existir.
Mas, na verdade, não importa a resposta, porque eu não vou alterar nada.
A vida seguiu e nada pode voltar a ser como foi um dia.
Eu mudei demasiado neste tempo: a pessoa que conheceste, um dia já, não existe — parte dela, porque tu a destruíste; a restante porque eu a abandonei e cresci, com todas as dores e alegrias do processo.
Mas nada na vida é final. Somente a morte tem esse peso.
Enquanto existir vida e escolhas, tudo é possível.
Faz as tuas, vive as tuas dores, levanta-te e vive.
Se for essa a estrada que devemos percorrer, voltaremos a reencontrar-nos e aí iremos perceber se ainda foi a melhor decisão teres partido.
Porque tu partiste…




