por Inês Biu Faro

Quando, há uns anos, assumi que não podia passar um dia sem escrever, foi assim que decidi viver sempre.
De escrever todos os dias a fazer as pazes com os formatos digitais, foi um pequeno salto, mas ainda assim difícil de dar. Demorei para me convencer de que um teclado seria mais rápido a acompanhar as minhas ideias do que a minha mão e uma caneta.
Dos diários às crónicas e desabafos soltos, mais um salto e, ainda, a descoberta terapêutica de que escrever me ajuda a conversar sobre as minhas dores, a abordar tudo por outras perspetivas, a desatar os nós da mente e a deixar o peito mais leve.
É a escrita que me dá fôlego para os dias, nem que envie mensagens a mim mesma, com ideias, com pequenos parágrafos, com uma expressão que não me saiu da cabeça durante horas.
Aos poucos, começo a ouvir-me, literalmente! Gravo-me a ler os meus textos, para que as emoções saiam do silêncio ensurdecedor, para serem só mesmo ensurdecedoras. Dando aos outros, não só as minhas palavras, mas também a minha voz, um pouco mais de mim do que é habitual. Até que se torne, também, algo que me dá fôlego para os dias.
Se estou feliz, escrevo; se estou triste, escrevo; se estou de mau humor, descarrego; se estou de bom humor, quero partilhar. Seja qual for o humor ou o apetite, é mesmo a escrita que me dá fôlego para os dias, para aguentar as pressões e espalhar os abraços. Para aliviar as tensões e dar amor, muito, muito amor.
Faça sentido ou não, escrevo. Só a mim importa; ainda assim, confesso que não são poucas as vezes em que escrevo tão apressadamente que os erros ortográficos aparecem, os teclados tornam-se mais lentos que o pensamento. E a fome que me dá? Quantas vezes estou eu a reler-me e comi sílabas ou palavras inteiras? Ui… escrever dá-me fome!
Ontem, cheguei à conclusão de que, muitas vezes, acabo por escrever crónicas inteiras no telemóvel, quando estou na fila para almoçar! Portanto, tenho fome e apetite e tento que as palavras saciem o estômago. Confiem em mim, não funciona! No entanto, alimentam a mente, o espírito, a alma, até o ego! E aliviam muito… sobretudo, o roncar de um estômago por preencher!
Neste sentido, não tenho propriamente uma hora específica para escrever. É quando sai, para onde sai. Tenho, sim, um mantra que tento seguir — não só por me fazer sentido, como também para me tornar cada vez melhor escritora. É ele: «escreve de madrugada e edita de manhã». Dado que já não tenho rotina horária de escrita, deixo as edições para mais tarde, com outros olhos, para quando a fome não me deu para comer as vírgulas.
Assim, mato apenas a fome, enquanto renovo o oxigénio que me dá fôlego para os dias: escrever!

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Para mim uma crónica muito inspiradora ! Preciso seguir esse exemplo, ir escrevendo todos os dias …