por Inês Biu Faro

Sempre tive verões muito semelhantes – pelo menos, aqueles dos quais me lembro. Metade do mês de agosto com o pai e a outra metade com a mãe – alternadamente, como quaisquer outros filhos de pais separados. Os meses antes e depois eram divididos entre a casa da mãe e a casa dos avós, ou até mesmo ATL’s do Jardim Zoológico.
Ainda assim, quero contar-vos a memória de verão mais bonita e presente que tenho: eu vi os meus avós a casarem! [risos] Isto é, vi-os renovarem os seus votos quando celebraram as Bodas de Ouro.
Foi no dia 21 de agosto de 2010 e, muito embora fosse «apenas» uma renovação de votos, foi um autêntico casamento. A minha avó quis ter tudo a que tinha direito. Desde as flores na igreja, à festa, comida boa e gente feliz à sua volta, entre aqueles que lá tinham estado 50 anos antes e aqueles que a vida lhe trouxe. E o meu avô deu à sua Nelinha tudo o que ela lhe pediu.
Lembro-me de que, no dia 20, fomos «obrigados» a sair cedo de casa e só poderíamos voltar praticamente para dormir. A casa seria limpa a fundo. No jardim, iriam montar a tenda, as mesas e as decorações. A cozinha e a sala seriam ocupadas com a empresa de catering. Eu só tinha levado o vestido de cerimónia e roupa de festa para o dia anterior e para o dia seguinte – imaginem-me a almoçar numa tasca com um vestido vermelho elegante e saltos altos. [risos]
Todos os elementos se envolveram, de uma maneira ou de outra. Queríamos todos oferecer presentes memoráveis. Então, os três filhos ocuparam-se de fazer um álbum fotográfico, a partir dessas e de outras fotografias encontradas; os netos fizeram um filme com a história da Família Biu. Mas não nos ficámos por aqui – claro que não. Numa família de músicos, claro que as maiores prendas foram musicais. A minha mãe cantou, os meus primos tocaram – eu não toquei; na altura, era percussionista e não dava muito jeito. E eu fiz a parte que melhor sabia: escrever!
De um rasgão, uma semana antes da cerimónia, ocupei três páginas com o texto mais bonito que alguma vez escrevi. Tinha pensado lê-lo na boda, mas o padre convidou-me a lê-lo antes do final da missa. Mal comecei, já sentia as lágrimas a caírem-me pelo rosto. Fui lendo e soluçando, respirando fundo. Quando terminei e levantei a cabeça, toda a audiência estava em lágrimas e ganhei o melhor abraço do mundo: o dos noivos.
E a festa… mesas fartas, comida boa, gargalhadas por causa do vídeo, o álbum que circulava e danças na relva. Ao final da noite, já todos tínhamos trocado de sapatos ou estávamos descalços, de pés na relva, a dançarmos ao som da Shakira e a tirarmos as mais bonitas fotografias de família que temos.
Comemos, bebemos, chorámos, brincámos e celebrámos o que é fazer parte de uma família tão bonita e como nos calhou esta sorte tão grande de estarmos todos juntos e tão felizes.
Todos os anos é uma data que se repete e que se comemora. Quando apareceram os filhos e, depois, os netos, os avós nunca mais quiseram comemorar sozinhos. Celebrar a sua união é também celebrar a família que construíram, é celebrar o amor, a amizade, o sentido de família, é cultivar ainda mais a união entre todos.
E, naquele ano, escrevi assim: «Cinquenta anos de casamento, de amizade, de vida em comum e de amor. Cinquenta anos de casamento, uma vida, uma aventura! Que, desde tão jovens, souberam enfrentar com tanta força e sorrisos. Vocês são realmente um exemplo de felicidade, cumplicidade e respeito mútuos. E é maravilhoso fazer parte de tanta felicidade. Espero continuar a aprender muito convosco. Até aqui, os Avós passaram 50 anos de batalhas diárias pelo bem-estar e felicidade de todos. Cinquenta anos a criarem e a aumentarem a família que hoje somos.
Lutaram contra doenças e venceram. Lutaram contra crises e venceram. Viram os seus filhos desviarem-se dos destinos que queriam que seguissem e continuaram a sorrir! Eles, que queriam ser paraquedistas, astronautas ou terroristas, são hoje dois excelentes engenheiros e uma belíssima cantora lírica. Formaram-se na vida com mérito e com o orgulho dos pais, que, tal como aos filhos, têm ensinado aos netos o melhor da vida e os seus maiores valores: honestidade, amizade, tolerância, compreensão e força de viver!»
Todos os verões comemoramos as Bodas dos Avós Biu, mas em 2010 foi diferente, completamente diferente. Foi o casamento mais bonito a que já fui, sem nem ter visto um vestido branco.
A Nelinha e o Humberto casaram! Vivam os noivos!!




