por Sónia Brandão

Quando o nosso olhar se cruza com algo quebrado, o nosso instinto diz-nos para tentar consertá-lo.
Foi assim quando te olhei.
Percebi, desde o início, que algo estava quebrado dentro de ti.
Não sabia a extensão do dano até te conhecer, mas sabia.
Soube nesse dia e, instintivamente, aproximei-me com a certeza de que te poderia «curar», o que quer que estivesse quebrado.
Comecei a tornar-me presente na tua vida, em ti. Tornei-me a tua bengala, aquela que te instigava a viver, a seguir em frente, mesmo que os teus olhos derramassem lágrimas sem motivo aparente.
Durante algum tempo, mantive-me ali, só como acompanhante, porque tu estavas demasiado preso na dor para perceberes que eu precisava e queria ser mais do que isso — queria saber tudo sobre ti para, daí, podermos seguir.
Mas, com o passar do tempo, percebi que me estava a tornar demasiado segura para ti. Estava sempre lá, sempre presente, sem questionar, sem julgar, e soube que tinha de mudar.
Mudei.
Afastei-me, na esperança de que percebesses a minha ausência — não porque eu já não te limpava as lágrimas, mas porque sentias a minha falta. A falta…
Mas tu estavas demasiado quebrado para perceberes. Não percebeste.
Não sentiste a minha falta, porque eu continuei a estar presente, mesmo estando a alguns passos de distância.
Ganhei coragem para sair da minha zona de conforto e comecei a questionar.
Perguntei, vezes e vezes sem conta, o que te tinha destruído. Nunca respondeste — limitavas-te a olhar-me nos olhos, até que a intensidade desse olhar se tornasse insuportável para mim e eu desviasse o olhar com medo de mim mesma, com medo de que o que quer que fosse também me destruísse.
Por vezes, senti que era um pássaro demasiado perto do sol, que por vezes chamuscava algumas das penas.
Quase desisti.
Deixei de perguntar.
Deixei de te limpar as lágrimas.
Comecei a caminhar noutro sentido.
Mesmo assim, o que me atraiu no início continuou a atrair-me.
Continuei a perambular em teu redor — mais distante, mas continuei ali.
Foi quando percebeste.
Percebeste que eu me estava a afastar.
E, sem perguntas, disseste:
— Quando alguém destrói a tua essência, quando alguém te fere tão profundamente que te esqueces de quem és, é quase impossível voltar. Lamento ainda estar lá.
Dando-me o direito de escolher para onde ir.
Pela primeira vez, percebi o quão longe estavas.
Ninguém te poderia curar.
Eu só poderia continuar a limpar as tuas lágrimas e aguardar que regressasses.
O que te destruiu demorou anos a sair do teu coração, da tua mente.
Mas, depois daquelas palavras, eu soube que poderias voltar, e que, de alguma forma, me querias encontrar quando esse dia chegasse.
Esperei — e tu apareceste. Emergiste do nevoeiro que te prendeu, das palavras que te feriram, das memórias que continuas a carregar. Nunca mais precisei de te limpar as lágrimas para seguires em frente.
Não te curei. Limitei-me a esperar ao teu lado até que esse dia chegasse.




