por Estefânia Barroso

Uma das frases que mais ouvia, quando era criança, não era muito simpática para a «catraia» que fui (ainda que tenha de concordar com ela!). A máxima que, tantas vezes, ouvi do meu pai, dos meus familiares mais velhos e, até, de alguns professores era a ameaçadora: «Tens a língua comprida! Um dia, corto-ta!»
A verdade é que, desde que me lembro de falar, sinto que tenho, como se diz popularmente, o coração na boca. Tenho alguma dificuldade em controlar os meus ímpetos verborrágicos — sobretudo quando alguma situação me causa aquela irritação explosiva. Quando isso acontece, dou por mim a soltar um sem-número de palavras, sem que antes elas sejam filtradas pelo bom senso ou, até, pelo filtro da sensibilidade. Tenho de assumir que não me sinto a pessoa mais excecional quando tal acontece. Por um lado, irritei-me – o que provavelmente me terá causado mais umas quantas rugas – e, por outro lado, acabo por magoar algumas pessoas que não mereciam aquela explosão de palavras mal-humoradas. E, mesmo quando são pessoas que mereciam suportar a pior versão de mim, penso que perdi completamente a razão ao perder as estribeiras daquela forma.
É claro que a idade, de mãos dadas com a maturidade, tende a alterar estas características mais explosivas da personalidade das pessoas. E isso aconteceu comigo. Com o passar dos anos, e com a maturidade a chegar, senti que me tornei uma pessoa mais calma, mais ponderada e, sobretudo, mais tolerante. As explosões de palavras tornaram-se menos frequentes. Passei a pensar duas ou três vezes antes de abrir esta boca que tão dificilmente se calava. Passei a ponderar com calma e paciência infinita as situações, verificando se, de facto, elas mereciam a minha irritação e o romper do dique das palavras. E, verdade seja dita, percebi que, na maior parte das vezes, as situações pouco mais merecem do que um silêncio ensurdecedor. Tornei-me, efetivamente, uma pessoa mais afastada daquela menina pespineta a quem ameaçavam cortar a língua!
Conhecem aquele velho provérbio que nos diz que «o lobo perde o pelo, mas não o vício»? Isto como quem diz que uma pessoa pode mudar de aparência, mas nunca a sua essência. Pois, tenho de admitir que é um pouco isso que se passa comigo. Posso ter mudado ou, melhor, moldado a aparência – mais calma, mais ponderada, menos «coração na boca» –, mas a verdade é que esta não é a minha essência. Eu sou, efetivamente, alguém que não gosta muito de pesar cuidadosamente as palavras que vai usar e que prefere ser autêntica naquilo que diz. Ainda que isso possa ser dito de forma ligeiramente desagradável. E, por isso, há momentos em que sinto que o vulcão que existe dentro de mim entra em erupção e, aí, lá saem as palavras, de jorro, sem barragens que as consigam controlar. E, quando estes momentos chegam, inundam quem estiver por perto.
E sabem que mais? Quando isto acontece, sinto-me bem. Sinto que enchi de tal forma que precisei de transbordar, retirar, de forma abrupta, o que estava a mais. E que limpeza à alma isso me traz! Que bem que me sabe voltar a ser aquela criança de língua afiada que diz tudo o que lhe passa pela cabeça, tudo o que lhe vai na alma! Neste feliz reencontro com a criança que fui, sinto-me outra, diferente, renovada.
Quando penso nisso tudo, percebo que a maturidade não apagou quem eu sou na essência. Ensinou-me, sim, a usar melhor aquilo que sou. A menina da língua afiada ainda vive em mim. Talvez esteja mais calma, é verdade, mas continua inteira e fiel à sua natureza. Como referi, o lobo perde o pelo, mas não perde o vício. Este lobo que aqui se apresenta não perdeu o vício, porque esta é a sua forma de ser verdadeira. E sinto que é um privilégio poder, de quando em vez, dar voz ao que vai cá dentro – sem medos, sem filtros e sem culpas. No fim de contas, dá-me uma certa paz ser quem sempre fui — ainda que isso implique, de tempos a tempos, dar plena liberdade à minha língua.
Pedindo emprestadas as palavras à Carolina Deslandes:
«Ai, se eu fosse mais calada
Ou se falasse devagar (…)
Ai, se eu fosse mais reservada (…)
Ai, se eu fosse mais calada
Ou tivesse tento na língua»




