por Inês Biu Faro

Sempre tive esta «peculiar mania» de criar laços para a vida, quer conhecesse a pessoa há cinco minutos, quer conhecesse há cinco meses ou mesmo anos.
Por ser uma mulher feita de afectos, espalho-os sempre, deixando estas bonitas fitas invisíveis. Um de cada cor, conforme eu quero e me apetece, sem legendas, estratos, degraus ou qualificações.
Claro que crio laços para a vida! Afinal a Plateia, o Salão de Baile, o Sótão das Mil e Uma Portas, os Jardins, todo o meu País das Maravilhas, não foram só criados para os meus sonhos de menina e mulher. Também os criei para organizar, arrumar, dobrar e perdoar, quando necessário, todos os meus laços para a vida.
Dos meus Laços para a Vida, naturalmente que uns serão mais largos que os outros, mais fortes, mais difíceis de partir ou perder. Grandes amores, grandes amizades, pessoas realmente importantes e marcantes — e até mesmo os meus Avós Paternos, enquanto Estrelas Guia.
Muitos deles mais difíceis de enrolar e guardar nos Baús de Memórias e nas Caixas de Ternura, alguns até ficam com pontinhas de fora e ou revivo e guardo, ou guardo só. Outros bem mais fáceis, ou porque ficou bem resolvido, ou porque não seriam assim tão importantes, ou porque foi do outro lado que foi quebrado e eu não me preocupei em consertar, tendo já aprendido o devido valor da reciprocidade.
Esta peculiaridade de ser Tecedeira de Afectos nem sempre é fácil. É maravilhoso, sim. É como eu sou. É natural em mim. É o meu encanto. Mas e a quantidade de novelos, nós, fios cruzados, direitos, retesados ou lassos que tenho por aqui criados e, muitas vezes, todos baralhados? Laços para a Vida são logo sinónimos para mil aventuras, novas memórias, apagar as antigas, abrir espaços e fechar outros, apagar luzes e acender outras. E, no fim, o meu Jardim está sempre colorido, está sempre cheio de vida.
É uma aprendizagem constante. É uma evolução. É algo que não posso excluir nem evitar. Aprendo com cada nó. Aprendo com cada laço que aumenta no seu comprimento e largura/grossura. Aprendo com cada novelo que é preciso guardar e com cada novelo que é preciso esticar, brincar e viver. Também aprendo a cortar as pontas soltas, a resolvê-las e a perceber se são para guardar ou para deixar ir com o vento.
Quando penso nos meus Laços para a Vida, vejo-os como aquelas brincadeiras de tempos idos há séculos – literalmente –, quando as meninas entrançavam as fitas coloridas em volta de um mastro alto. Acabo por ter fios mais apertados e outros mais apartados, uns mais fortes, outros mais lassos, uns que sei que não se partirão, outros que, de vez em quando me deixam em dúvida, e, ainda, uns quantos que vou deixando estar. Sinto que fiz a minha parte para os manter. Se caírem, é porque tinham de cair.
Nem todos os Laços para a Vida são-no realmente. Gostei de lhes dar este nome e de me intitular Tecedeira de Afectos precisamente por gostar tanto de distribuir afectos e amor. Por fazer tudo sem maldade, quando me aproximo de alguém, é genuíno. Não uso rocas. Gosto de ter os fios e os laços prontos a distribuir, atirar e, se apanharem, teremos as duas pontas presas e, se me for atirado um laço de volta, estará construída a ponte de reciprocidade dos Laços para a Vida.
Quando comecei a pensar nesta frase «laços para a vida», lembrei-me de antigas amizades, que eu realmente pensei e assumi que seriam para a vida e foi do outro lado que o laço se quebrou. Assim como em amores antigos – ex-namorados mesmo! –,que, de vez em quando, vêm passear ao meu Jardim florido, na esperança de verem esta Princesa à janela, de trocarem dois dedos de conversa e ver no que dá. Sem se darem conta de que eu já não sou a mulher que eles, um dia, conheceram, com quem um dia estiveram e namoraram. Somos todos feitos de fases, de mudanças, crescimento e laços. Eles também já não são os rapazes que, um dia, conheci.
E, nisto, eu tenho tendência a ser igual para com toda a gente. Se quebraram os laços comigo, mesmo depois de eu ter tentado manter da minha parte, quando corto, não há volta a dar. Foram importantes, um dia. Resolvi, enrolei e guardei. Não há mais fio para tecer um laço que foi desfeito.
É precisamente, por sermos todos feitos de mudanças e evoluirmos todos os dias, que os meus Laços para a Vida são cada vez menos distribuídos, mas com mais confiança e mais certezas.
Nunca deixarei de ser uma Tecedeira de Afectos. Os meus Laços para a Vida é que se tornaram mais estritos.




