Laura Almeida Azevedo

por Laura Almeida Azevedo

Partilhar:

É pedaço a pedaço.

É tijolo a tijolo que se constrói uma casa. É passo a passo que se caminha longas distâncias. É palavra a palavra que se faz uma partilha importante. É decisão a decisão que se escolhe um novo percurso, que se cria uma nova vida. É minuto a minuto que uma hora inteira se molda — e é momento a momento, independentemente dos minutos que cada um deles tenha, que se fundamenta uma vida feliz.

Não adianta querermos fazer tudo de uma vez.

Não adianta querermos andar mais rápido do que as nossas próprias pernas; dizer demasiado de uma vez, só para se dizer tudo, correndo o risco de não sermos perceptíveis ou até de dizermos algo antes do seu tempo. Não adianta querermos escolher todos os percursos de uma vez porque, mesmo que o façamos, a verdade é que é quando caminhamos por cada um deles que descobrimos novos cruzamentos e desvios que precisamos de fazer — haverá sempre caminhos cortados, estradas destruídas, setas mal posicionadas.

O imprevisto é importante. O imprevisto é necessário para crescermos, para amadurecermos, para errarmos, para sairmos da nossa zona de conforto e criarmos uma vida que é também feita com a espontaneidade que ela merece: a espontaneidade de quem se dá, de quem se entrega, de quem se permite sentir no momento, de quem ousa decidir de acordo com o que sente e a vida vai precisando.

Não é um pedaço que define o todo.

É pedaço a pedaço. São todos os pedaços juntos.

Não é uma atitude que define uma pessoa, nem uma fase que define uma vida.

É a combinação de todas as atitudes, de todas as fases.

E a felicidade? Ah, a felicidade.

A felicidade não é uma decisão definitiva tomada num momento de lucidez e vontade. Se assim fosse, éramos todos felizes, porque todos nós, em algum momento, ou em vários, ou em tantos, quisemos muito sê-lo, prometemos muito vir a sê-lo — aos outros, mas, acima de tudo, a nós.

Até a felicidade é um todo.

Eu posso ser muito feliz agora, neste instante, enquanto vos escrevo, mas isso não faz de mim uma pessoa feliz num todo. A felicidade não existe só porque olhamos para a frente e decidimos que queremos ser felizes, que merecemos sê-lo, que temos tudo para sê-lo. Isso ajuda, mas não faz a felicidade existir por si só. A felicidade é, na maioria das vezes, nem pensar nisso. É estar no momento e, de uma forma nem sempre explicável, de uma forma nem sempre possível, sentirmos que o que temos chega. E é olhar para trás e, colocando na balança tudo o que aconteceu, tudo o que se viveu, ter-se a noção de que, em muitos desses momentos, desde os melhores aos menos, uma força em nós foi capaz de, mesmo assim, reparar nas coisas melhores e escolher guardá-las, em nós, mais do que as piores: resignificando-as, vendo nelas um propósito, tirando delas uma aprendizagem, recolhendo delas uma força e coragem maiores do que a mágoa, a frustração, o rancôr e a revolta que poderiam redefinir-nos, a partir dali, se não tivéssemos tomado uma escolha consciente na direção oposta.

Pedaço a pedaço. Passo a passo. Escolha a escolha.

Pequena vitória a pequena vitória.

Tudo o que fazemos, todas as decisões que tomamos, todos os pensamentos que temos, todas as emoções que nos permitimos sentir — por mais pequenos que sejam, por mais minuciosos, por mais vulgares que pareçam ser, por mais mundanos, por menos intencionais que sejam — importam.

É pedaço a pedaço que construímos — e, mais importante, que reconstruímos.

Que reconstruímos o que caíu, o que desmoronou.

Que nos reconstruímos – a nós!

E não adianta querermos fazê-lo de uma só vez.

Não adianta querermos fazê-lo já, agora, neste instante — o mais depressa possível —, porque não adianta querermos ir mais depressa do que o tempo, dar passos maiores do que as nossas pernas, tomar decisões maiores do que conseguimos emocionalmente acompanhar.

É pedaço a pedaço, momento a momento, passo a passo.

E levará o tempo que tiver de levar para que o que nos fundamente, a partir daí, seja firme suficiente para nos manter de pé — neste e no próximo embate!

 

About the Author: Laura Almeida Azevedo
Laura Almeida Azevedo
Escreveu o livro "apetece(s)-me". Teve um blogue com o mesmo nome. Fundou e geriu uma plataforma de escrita criativa, Desafio-te, durante dois anos. Vive em Londres, onde trabalha como web e graphic designer e em marketing digital. Licenciada em Comunicação, Jornalismo, adora histórias — sobretudo, as reais — e foi também por isso que criou a emootiva.

Deixa um comentário:

Também podes gostar de ler: