Sónia Brandão

por Sónia Brandão

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Sei que estou perdida.

Sinto a vida a avançar sem mim.

Não me reconheço.

Sei que o meu reflexo não é meu.

Não sei…

Levo horas parada em frente a mim, a tentar ver quem sou hoje.

Pouco consigo ver para lá da bruma que me cega.

Onde me perdi?

Onde deixei de caminhar e me limitei a ver a vida seguir?

Onde desapareci?

Sento-me.

Não consigo mais olhar para o reflexo que me olha de volta.

Não sei quem é a estranha que me persegue.

Não sei quem sou…

Deixei de me ver.

Deixei de caminhar.

Deixei de existir…

Em algum momento, deixei de ser.

Em algum momento, deixei que os outros me definissem.

Perdi-me…

Perdi-me dentro de mim, sem perceber onde ou como.

Perdi-me da minha essência. Perdi-me do que me define como “eu”.

Deixo as lágrimas correrem livremente pelo meu rosto. Choro até o mesmo me sufocar. Grito sem som. Abraço-me na tentativa de encontrar algum conforto.

Desfaço-me em pedaços impossíveis de colar.

Destruo as amarras da minha mente.

Levanto-me assim que as forças retornam.

Olho a desconhecida que me fita e devolvo-lhe o olhar — desta vez, com a certeza de que irei ganhar a guerra.

Procuro-me a mim.

Procuro quem fui, quem quero ser.

Demoro horas até me ver.

Até olhar para mim.

Desfaço os nós que ainda me amarram.

Sorrio.

Sorrio para mim, e dou-me as boas-vindas.

Sei que voltei.

Hoje, existo — sem a pressão dos outros, sem os rótulos dados por outros, sem o medo.

Sem o medo de recomeçar

Sem o medo de caminhar.

Sem o medo de me olhar.

Voltei.

Existo.

Eu defino-me. Só eu me defino.

As visões dos outros são deles. Eu não sou responsável por elas.

Mas, hoje, voltei a ser responsável por mim.

Os olhos que ainda me fitam brilham, brilham pelo reencontro há muito adiado.

Nada supera o reencontro connosco. Sem ele, não existimos. Os outros encontros e reencontros podem nunca acontecer, e está tudo bem , mas o nosso connosco tem que existir, para os olhos brilharem e a vida continuar…

About the Author: Sónia Brandão
Sónia Brandão
Apaixonada por palavras, aprendeu, desde nova, a criar realidades paralelas na sua mente — onde tudo era possível. "Amor de Perdição" foi o primeiro livro que leu. Tinha 13 anos e foi a mãe que lho sugeriu para se ocupar. Desde então, nunca mais parou de ler. Durante alguns anos, no entanto, parou de escrever: sentiu que tinha deixado de fazer sentido. Mas o confinamento fê-la regressar à escrita com mais força e determinação. Este ano, surgiu a vontade de partilhar com os outros o que coloca no papel.

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